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O que o tempo leva… (37)

UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Arquivo Pessoal)

 

NASCE a amizade. O sensível Sancho Pança e o Casanova alquebrado conversam sobre o amar, sumo da vida. Citam Drummond, o poeta: Não há nada além…

 

Felisberto até que é divertido.

Não sei se o convenceram as explicações que lhe dei sobre o fato de chamar de Dulcineia as mulheres que desfilaram pela minha vida.

– Quero preservar alguns nomes de uma possível indiscrição. Outros, vou ser sincero, ainda tenho dificuldade em dizê-los. Este ou aquele, em especial… Mas deixamos assim… Faz diferença?

Não deixo que responda. Pergunto logo:

– Você conhece o romance de Dom Quixote e o amor exacerbado por uma dama da corte, de nome Dulcineia Del Taboso que, a bem da verdade, era unicamente fruto da imaginação do gajo?

– Conheço, sim. De ouvir falar. Ler, não li não. Mas, de tristezas e abandonos, doutor, bastam os meus. Prefiro que me conte as suas aventuras. Parece que o doutor soube aproveitar os ventos que lhe sopraram no amor.

– Não sou doutor. Me chamo Carlos Artúlio.

Será mesmo que me dei mesmo ao desfrute?

Tenho lá minhas dúvidas.

Arrependimento, nenhum.

Apenas vivi o que me coube viver.

Inclusive com a moça que queria morar num apartamento sem paredes, eu…

– Guarde essa aqui, Felisberto, para o seu caderninho:

“Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.”

– O autor é o poeta Carlos Drummond de Andrade.

– Bom, muito bom também, gostei. Desculpe se pareço abusado, doutor, mas já que tocou no assunto. O senhor não casou não, mas morar junto morou?

Providencial a indagação do meu novo amigo.

(Desconfio que seremos bons amigos.)

– Algumas vezes. O difícil não era o chegar e, sim, o momento de partir. A divisão das coisas, o luscofusco que permeia o futuro, a sensação de perda que é inexorável, de que somos efêmeros… Mesmo que se saia só com a roupa do corpo, é sempre traumatizante.

–  Não sei o que é inexorável. Mas, sei como é. Dói demais.

– Você já foi casado?

– Não. Mas foi por um quase, doutor. Um quase.

Felisberto recorre outra vez à gaita para exorcizar seus fantasmas,

Sem se dar conta que, aos meus olhos, traveste-se em um destrambelhado e sensível Sancho Pança.

Eu me vejo não como o Cavaleiro Andante e, sim, como um Casanova alquebrado com as linhas do rosto e o coração marcados por destemperos e inglórias jornadas.

Na verdade, um homem comum.

Apenas um homem só.

Mas que se permite sonhar e querer mais.

Lembro mais dois ou três breves envolvimentos para que, por favor, ele pare com o que chama de música d’alma.

Sei que este é um recurso um tanto desleal, de gosto duvidoso.

Mas ele parece gostar.

Especialmente da história da Cigana, de pele cor de jambo e curvas insinuantes. Ela me parou à porta do restaurante Piolin. Pediu para ler a minha mão. Disse que eu estava prestes a sofrer uma grande perda. Deveria ficar esperto. Não podia vacilar. Senti suas mãos quentes envolverem a minha. Entendi que, babau consulta, era o sinal.

E era, e foi.

Fomos pra casa.

Na manhã seguinte, desapareceu.

Levou meu relógio, minha carteira e o prêmio que ganhei da Associação Paulista dos Críticos de Artes como Ator Revelação.

Ela imaginou que a estatueta fosse de ouro maciço.

E eu já tinha quase 40 anos e uma sólida carreira quando a APCA descobriu que eu existia.

Felisberto riu a valer da minha tonguice.

Fez um comentário bem pertinente:

– É, doutor. Pelo visto, nesse dia, a banana engoliu o macaco.

Voltou para a sua ‘música d’alma’; e eu, em pensamento, para o meu inventário amoroso.

Temos ainda algum tempo de viagem.

Houve uma, muito especial, talvez. Aquela Dulcineia que me pediu a certeza do futuro. Só pude lhe dar o presente quebradiço, de afeição, desejos e incertezas.

Viajou. Sempre disse que assim faria caso eu não me decidisse.

Um dia, triste dia, eu a esperava no lugar de sempre.

Olhei para o céu e vi o avião… E disse pra mim mesmo:

“Ela não veio e não virá.”

(Acho que já contei essa história?)

 

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