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O que o tempo leva… (38)

UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Leila Cunha)

 

A DEUSA HINDU que o Ator conhece quando vai a uma Pinacoteca e os dilemas da profissão que tem lá seus altos e baixos. Mas, é imprescindível…

 

– Estão dizendo que o doutor vai morar lá na Pousada do Morro Torto?

– Por enquanto, sim.

Respondo no automático, sem querer prolongar o assunto.

Estou tão absorto nas minhas lembranças. Não me dei conta de que o motorista cessou com o suposto talento musical há algum tempo. Perguntou por um tal de Sr. Camargo que trabalhou na TV como alguém “que tira e põe as coisas no estúdio”. Contra-regra, talvez.

Mudo a conversa. Vou lhe contar sobre a Deusa Hindu que conheci na Pinacoteca quando fui a uma vernissage de um amigo. Acho que Felisberto gostaria de ouvir.

Ela trabalhava ali e, naquele início de tarde de sábado, estava com um rapaz ao lado. Devia ser o namorado.

Bastou um olhar para que nós nos pertencêssemos.

Fulminante.

Veio em minha direção e se apresentou. Disse que me levaria ao Quiroga, o artista plástico expositor.

A propósito, onde anda o Quiroga?

Enfim…

Voltei no outro dia, depois no outro e no outro.

Mas, ficávamos apenas conversando e nos esbarrando.

Era uma situação lúdica. Sabíamos o que queríamos, mas havia um cuidado em dar o primeiro passo. Ou o primeiro amasso. Ou o primeiro tudo.

Não era indiana nada, devaneio meu. Mas, parecer parecia, e era toda envolta em mistério e zen-budismo.

A vida desandou profissionalmente.

Precisei me ausentar da cidade.

Fiquei um tempo sem aparecer.

Assim que pude voltei à Pinacoteca com um pretexto qualquer.

Queria pesquisar algum tema.

Ela se disse feliz por me rever.

Sorriu. Entendeu que estava ali por ela.

No caminho para a biblioteca, aconteceu o beijo. Impulsivo, com gosto de ‘pra sempre’.

E assim tudo começou.

Foi mesmo um tempo louco.

Juramos nos casar no templo budista, numa cerimônia despojada, descalços e em segredo.

Nunca aconteceu.

Estranho. Não deixamos de nos amar.

Apenas tomamos caminhos outros.

Vai ver porque sou péssimo em guardar segredos.

– Olha que tive meus motivos para voltar pra cá.

Felisberto continua falando, melhor lhe dar atenção:

– Mas, não entendo: um ator famoso como o doutor querer se isolar do mundo? O lugar é bonito, tá certo. Para descansar, ótimo. Conjuminar as ideias, também. Mas, olhe que ficar lá por mais de três dias, nem o Talarico aguenta. Sempre que pode, inventa que precisa repor a despensa e desce pra São José do Barreiro.

Talarico? Ah, sim, o dono da Pousada do Morro Torto. Foi com ele que tratei a estadia, sem data certa para a saída. Também ele ficou surpreso. Disse que o hotel-pousada não era exatamente um flat. Mas, claro, sentiria-se honrado com a minha presença e veria como fazer na questão do preço.

Tenho algum guardado. Nunca fui de muitos luxos.

Alguns coleguinhas viraram fazendeiros, outros compraram apartamentos de cobertura, iates, essas coisas de celebridades endinheiras.

Não os invejo.

Nunca me fiei na profissão. Tem altos e baixos. Não que tenha sido morrinha. Apostei em algumas montagens que foram assim-assim. Fiz alguns investimentos conservadores que me permitem, nessa fase da vida, tirar um tempo sem trabalhar e sem passar fome.

– Preciso desse ócio, digamos, criativo. Quero reavaliar algumas coisas, racionalizar, simplificar. Vou tirar um sabático. Pensar e repensar. Não tenho mais idade para me enganar, para ilusões. Não há como derrapar justamente agora. Também não tenho mais tempo para lamentar o que se perdeu. Dá para entender?

Respondi a ele ou a mim mesmo?

Não sei.

O que sei é que estou só.

Que perdi a motivação de estar num palco.

Detesto tudo o que me chega às mãos.

Acho pobre, sem inspiração, repetitivo.

Um ator precisa de desafios. Renovar-se a cada empreitada.

Qual a função da arte hoje?

Ganhar dinheiro, reafirmar o status social, entreter, alienar?

Melhor criar galinhas, como diziam os antigos.

 

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