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O que o tempo leva… (39)

UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Reprodução)

 

O teatro perdeu o passo? Houve um tempo de luta e compromisso. Parceria: o palco e a vida. E agora? A esparrela de olhar para o próprio umbigo…

 

– A arte existe porque a vida só não basta, doutor.

Eu e minha mania de pensar em voz alta.

Acabei por perturbar o Felisberto.

Não é à toa que o chamam de Filósofo. Melhor do que eu soube responder à pergunta que me fiz. Não sei se sem querer ou de propósito acaba de citar o grande Ferreira Goulart que conheci há muitos e muitos anos, mas não chegamos a ficar amigos.

É bem por aí.

Houve uma época em que o teatro chutou para o alto o conservadorismo.

Tempo do Teatro de Arena, de Boal.

Tempo de Roda Viva, do Chico Buarque.

De O Rei da Vela, de Oswald de Andrade no Oficina e outras tantas aventuras renovadoras.

Combateu-se a ditadura de forma corajosa, contundente. Enfrentou-se a censura e o arbítrio. Fomos vitais para o êxito das manifestações pelas Diretas-Já que, de uma forma ou de outra, consolidaram como plena realidade o processo de redemocratização do país.

Mas, a partir daí, uma ou outra montagem se propôs a fugir ao lugar comum.

Antunes Filho, certamente. Quem mais?

Estou sendo radical?

Éramos os antenados, os precursores do novo, arautos de uma sociedade mais justa, mais contemporânea. De um ser humano mais solidário.

Onde perdemos o passo?

Faço o meá-culpa, pois também caí em tentação, na esparrela de só olhar para o próprio umbigo.

Passamos a ser conivente com o sistema, os que estão no poder.

Que poder? Qualquer poder.

Foi bem mais cômodo servir a um só patrão, tanto no palco como nos estúdios de TV.

Em troca, viramos pessoas ilustres, importantes. Somos convidados – e alguns regiamente pagos – para frequentar festas e recepções dos novos ricos, os emergentes insossos. Se preservarmos a imagem pura e bela, seremos chamados pelas as agências de publicidade para campanhas milionárias, com altíssimo cachê. E todos passam a nos invejar por isso.

Quando a Poderosa nos contrata, então, diz aí!

É o auge.

Passamos a usar o crachá globalizante na alma.

Às favas, o ameríndio em cena.

Às favas, os sonhos, o compromisso, a utopia.

Às favas, eu mesmo!

Pronto.

Exatamente esse rancor que quero deixar para trás.

Nada adianta ficar remoendo mágoas, remorsos.

Fiz o caminho à minha maneira. My way.

Aliás, tive a sincera impressão de que o século 20 havia acabado quando soube da morte de Frank Sinatra.

Eu e muitos como eu também morremos um pouco naquele momento.

Exagero?

Ok. Há um paradoxo aí.

Sinatra não tinha nada de contestador, revolucionário. Mas, sempre foi a referência de uma geração que amava e amava e amava até as últimas e avassaladoras consequências.

O que Sinatra sofreu por amor quando Ava Gardner o deixou foi qualquer coisa!

O ídolo mundial, devastado. Apesar de toda a fama, todo o dinheiro e as mais belas canções.

Disse isso à moça, certa vez.

Sabe o que me respondeu?

– Alguma ele aprontou.

Rebati:

– Não fale assim.

– Dizem que os homens são solidários. Nós, mulheres também, .

Fiquei em silêncio. Talvez houvesse ali um desencontro geracional.

Na verdade, sou um cara à moda antiga.

– Vem, vamos andar na praia, vai ser bom.

A propósito, lembro que li a biografia do ator italiano Marcello Mastroianni, aquele que viveu um (quase) secreto romance com a deslumbrante Catherine Deneuve. Há, em um dos trechos, um tocante depoimento ao escritor Enzo Biagi.

O ator compara nossa existência às férias de verão:

“No primeiros dias, pensamos que nunca terão fim. Mas, rapidamente, quando nos damos conta, já se acabaram, e deixamos tantas coisas por fazer. Quando era jovem, pensava que era eterno, e creio que todo o jovem pensa assim. Agora sei que, da vida, já vivi o meu melhor – e só posso agradecer o fato de continuar vivo e trabalhando, com tantos amigos por perto.”

Mastroianni deveria ter, à época, a idade que hoje tenho.

Reconheço, porém, estou longe de ter a magnificência do grande ator italiano.

Eu acabara de visitar o apartamento sem paredes, aquele que não comprei. Era um dia tipicamente paulistano. Borralhento e desalentado. Olhei pela janela. Estava só. Longe da praia, longe dela e não havia sequer a linha do horizonte para me amparar.

Entendi que era a hora de partir…

 

 

 

 

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1 Response
  • VERONICA PATRICIA ARAVENA CORTES
    27, maio, 2020

    Nossa, essa citação foi forte!

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