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O que o tempo leva… (40)

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UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Arquivo Pessoal)

 

NÃO SEI QUEM é Camarguinho, e daí? Um mar de montanhas nos rodeia. Misteriosas e belas. Soa anos 70, por vezes. Easy Rider caboclo, assim que me sinto…

 

– Não, companheiro, não conheci nenhum Sr. Camargo, Camarguinho ou outro nome que o valha. Seja na Record, seja na Tupi, seja na Excelsior. A Globo nem sequer existia à época. Portanto, não faço a menor ideia de quem seja o fulano. Menos ainda de que seja ele o protagonista de um grande momento da TV brasileira. Penso que essa história está é mal contada.

Não quis ser grosseiro com o meu simpático motorista.

Mas…

Ele insiste tanto nessa questão do tal Camargo que preferi responder com a verdade. Que me desculpe se for algum velho companheiro, mas é provável que o dito-cujo inventou uma falseta para animar a roda de desocupados que ambos frequentavam.

Nada além do que isso.

Felisberto me parece ingênuo, de boa fé. Deve ter acreditado piamente.

Enfim, não o conheço – e ponto final.

Posso estar enganado, mas o cabrão gostou da minha resposta.

Desconfio até que não ia lá com a fuça do gajo e a pergunta tinha, na verdade, outros propósitos.

A impressão que tenho é a de que se sente, de algum modo, vingado saboreando minha resposta nua e crua.

Ops.

Lá vai ele novamente, gaitinha em punho.

Não tem escapatória. Sapeca uma modinha de doer os tímpanos.

À essa altura da viagem, o silêncio e a paisagem me bastariam.

Melhor ouvir isso do que ser surdo, não?

Um mar de montanhas nos rodeia. Misteriosas e belas.

Vi as fotos da cordilheira. Imensa, onipresente. Amanhã logo pela manhã, com mais calma, as verei plenas ao nascer do sol.

Quando criança, sempre me fascinou a ideia de ser dono de um morro.

Doidice?

Influência dos filmes de faroeste, provável.

Sempre havia uma casinha lá no alto, uma chaminé fumegante, a paisagem bucólica.

Isso, antes que a ação propriamente dita começasse.

É mais ou menos isso que agora busco. Se bem que me falte a mulher amada.

Nem tudo poder ser perfeito.

Quando disse aos amigos sobre a ideia do auto-exílio, sumir por uns tempos, quase todos sugeriram cidades europeias, Londres, Paris, Madri. Uma temporada em Nova York era – e ainda é – o objeto de desejo de outros tantos.

Percebi que ninguém, absolutamente ninguém, entendeu o que se passa comigo.

Se lhes dissesse o que penso, ficariam magoados, certamente.

Não quero mais me sentir preso às engrenagens, à tal roda-viva, à compulsão do ter antes do ser. De passar uma imagem de vitorioso mesmo que esteja com o ‘eu’ em pandarecos.

Soa anos 70, não? Easy Rider caboclo, mas é assim que me sinto na virada do século.

O que seria de um ator sem os seus fracassos?

Como ele entenderia o lado ‘perdedor’ da vida se só vivesse de temporadas de sucesso, personagens clássicos, protagonistas das novelas mais bem sucedidas, letreiros luminosos?

Assim como o poder exacerbado, a fama e o sucesso mal-administrados também corrompem, devastam.

Poder e sucesso, a dupla explosiva. E pessoalmente implosiva.

Será que ainda há quem se sinta um semideus, o predestinado, capaz de reger o próprio destino e o de todos que estão ao redor e além?

Para os amigos (e puxa-sacos), tudo! Para os demais, os nublados (como um céu noturno sem estrelas), o limbo dos corredores à espera do chamado que nunca vem.

– Quem sabe na outra novela, teremos a honra de tê-lo no elenco. Mas, por enquanto…

Dizem com ares de sacerdote supremo.

– Quero que se fodam!

– Disse alguma coisa, doutor?

– Não, companheiro, pensei alto. Estava imaginando por onde anda a minha Dulcineia?

– Qual delas? Foram tantas que eu até me confundo. Lembro mais daquela, a Cigana, que lhe roubou o relógio e a carteira.

– E o troféu que pensou fosse de ouro.

– Vai entender. O senhor aparece na TV, nas novelas, nos filmes… Sempre imaginei a mulherada caindo em cima e o doutor só administrando.

– Já fui bom nisso, amigo. Agora estou como você, sozinho. E, vou lhe dizer, sentido uma saudade danada do meu enrosco. Pensei que fosse o definitivo, o fim da procura. Mas, a vida é assim, não é? É jogo jogado, não tem volta.

– Aqui, a gente diz: o jogo é jogado e o lambari é pescado…

– Tem razão, Felisberto. É por aí…

Onde andará aquela doce encrenca? Que vacilo!

– Mas, doutor, qual delas é que é? O senhor me confunde com tantas Dulce-sei-lá-o-quê

 

 

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