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O que o tempo leva… (45)

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UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Arquivo Pessoal)

 

“Claro que existe o amor. Mas existe a vida para torná-lo impossível” – Rubem Fonseca. “Amor é caminho sem volta, doutor ” – Felisberto, o Filósofo…

 

Felisberto e o incrível Fusca Bala retomam o caminho.

Trepidantes. Ele, o carro e eu, no embalo.

Sigo para o meu enigmático destino.

Nem o Zé Augusto, menos ainda o Carlos Artúlio, nenhum dos dois (que são um) se imaginaria num fusquinha mequetrefe (valente, mas sempre um fusquinha) a caminho das barrancas e das nascentes do riacho das Garrafas, um denodado afluente do famoso (ao menos, por aqui) rio Mambucaba, este sim com o glorioso desígnio de correr para o mar.

Meu amigo motorista não se contém:

– Sempre que passo por aqui me corrói uma saudade daquelas. Só garrando na melodia para afugentar as mágoas do coração de quem ama e não é amado.

E dá-lhe gaita!

Olho e desconfio.

Esse sujeito é, no fundo, um brincalhão. Está de zueira comigo.

Uma frase pode me salvar:

– Felisberto, amigo, ouve esta:

“Claro que existe o amor.

Mas existe a vida para torná-lo impossível.”

Continuo:

– É de um grande escritor brasileiro. Chama-se Rubem Fonseca. Gostou?

– É boa também. Depois me lembre para anotar, viu?

– Amor é caminho sem volta, doutor.

Rapaz, bateu um remorso. O moçoilo ficou triste que só.

Vou lhe contar uma passagem para distrair.

Certa noite, o músico Caçulinha apareceu para jantar no restaurante em que eu estava com um grupo de amigos e a moça. O Caçulinha, esse que toca no Domingão do Faustão. Pois é…

Eu o conhecia dos tempos da TV Record. Nos cumprimentamos com um aceno de mão.

Logo lhe trouxeram um acordeão antes mesmo da comida e lhe pediram que tocasse algo.

Ele tocou lindamente La Vie en Rose.

Os olhos da moça brilharam de encantamento.

Eu e ela estávamos assim no vai-não-vai, quase indo.

Fomos.

Um momento mágico, pleno, inesquecível.

– Eu devia ter a idade que você hoje tem. Assim é que é, camarada. Acredite. Quando menos se espera…

– Sabe, doutor, gosto da vida que tenho hoje. Mas seria bem melhor se, quando voltasse pro meu ranchinho na subida da Água Santa, eu tivesse alguém a me esperar. Seria o marmanjo mais feliz do mundo.

“Alguém” que nós dois sabemos bem que é.

(Ficou pior a emenda que o soneto.)

Tenho muito que aprender por aqui. Inclusive, a hora de falar e, principalmente, a de calar.

– Tem gente que precisa de tanta coisa na vida, não é doutor? Só queria que ela me quisesse. Mas entendi que é impossível. Nem lembra que eu existo. E, ademais, eu já me acostumei com a minha sina, à minha solidão. Tenho muitos amigos, mas não é a mesma coisa.

– Felisberto, meu prezado, era exatamente isso que eu estava pensando enquanto você, ao contrário do Caçulinha, assassinava o repertório. A única diferença entre nós dois é que eu vou precisar me acostumar com a ideia de ser só. Como vê, apesar de diferentes, somos iguais. Na mesma canoa furada. Ou melhor, no mesmo e valente Fuscão.

– Porteiraaaa! Olhe lá, doutor, naquela elevação acima do lago. É a pousada. Logo atrás ficam os chalezinhos. Um deles será o do senhor, gostou?

Felisberto não ficou para ouvir a resposta.

Foi cumprir o tal ritual enquanto eu, o grande ator, embevecia-me com a exuberância do cenário onde representarei o mais difícil papel: ser apenas um homem só. Sem planos, sem ilusões.

Não foi preciso descer do carro para o coração transbordar, tal e qual os córregos em dias de chuva forte.

Uma trava na garganta pontuou e antecipou o pensamento: seria maravilhoso tê-la aqui comigo. Ela quem? Quem seria a Dulcineia, a Derradeira?

Eita que não me decido…

– Doutor, doutor, eis aí. O novo lar. Uma florada vermelha o aguarda! Deixe que eu leve as malas e as caixas de livros.

– Vamos fazer isso juntos, ok?

– Antes, porém, eu gostaria de lhe presentear: fique com a minha gaita. Perdoe a falação, não sei se é apropriada, mas acho que o amigo vai precisar. Não precisa saber tocar, não. Ser assim um Caçulinha. Quando a saudade bater, o senhor sopra forte que o som pode não sair lá grande coisa. Mas, lhe garanto, os olhos não ardem tanto e a gente escapa daquela apertura no peito que dói no corpo e esmerilha a alma.

– Felisberto, amigo, não precisa se…

– Olhe, não se preocupe comigo. Que estou mais calejado e, na boa, me desafogo melhor no assovio.

– Dê cá um abraço, homem.

– Fique com Deus, doutor. Até mais ver…

(FIM)

 

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