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Pedro Paulo

Foi em um 29 de junho como hoje é.
Dia de São Pedro e São Paulo —
que, por sinal, emprestara o nome
à cidade onde tudo aconteceu.
No ano santo de 1939.

I.

Puxa, e lá se vão 68 anos…

As festas juninas eram diferentes. As famílias se reuniam na rua mesmo, faziam fogueiras junto ao meio-fio, improvisavam comes e bebes em tábuas sobre cavaletes. Cantavam, dançavam, e conversavam. Naquele 29 de junho, feriado – vale lembrar –, além da comemoração de vizinhos e familiares, estava marcado um baile no salão do clube recreativo dos operários da fábrica de chapéus Ramenzzoni, onde trabalhava a menina Yolanda, de 15 para 16 anos, sua irmã Odete e o pai Carlito.

Carlos Humberto Vitório Avezzani, o Carlito, era chefe da seção de Chapelaria. Um cuidadoso artesão, no emprego Um pai rigoroso em casa. Mas, gostava de um bom copo de vinho – um só, não; vários – e farrear com os amigos espalhados pelo bairro do Cambuci.

II.

Pois foi na tarde daquele dia que Carlito, distraidamente, levou um rol de amigos para a comemoração do dia de São Pedro em frente à sua modesta casa de aluguel, na rua Lavapés. A esposa Ignês não gostava nada dessas fanfarronices. Carlito tinha 35 anos, deveria tomar juízo e não ficar de trela com essa molecada.

Tinha alguma razão, a senhora. Mas, não toda.

Entre esses, digamos, convidados fanfarrões, estava um jovem de 22 anos chamado Aldo, um bamba na arte de valsear “com rodopio pela direita” e jeito simpático de sorrir sem mostrar os dentes.

Tinha outras qualidades. A saber. Morava perto. Lá pelos lados da Lins de Vasconcelos. Era de situação remediada. Descente de calabreses, torcedor do Palestra e centro-avante do Atlantic. Detalhe: também gostava de apostar moderamente no Jóckey Club.

Um belo currículo.

III.

Aldo e Yolanda se viram pela primeira vez naquele dia. Bastou um olhar para que descobrissem que viveriam juntos para toda a vida. Tanto que, no mesmo dia, Aldo passou a chamar o amigo de “sogrão”. Carlito, registre-se, não gostou nada daquela brincadeira. Percebeu que a filha também sorriu a retribuir as atenções do moço de jaquetão bem cortado (o pai era alfaiate) e bigodinho afilado. Para o seu gosto napolitano, a menina já lhe dera liberdade demais. Onde já se viu retribuir um olhar com um sorriso!

IV.

Por isso, tratou de arquitetar rapidamente um plano. Não que o Aldo fosse um mal rapaz. Tinha emprego. Trabalhava numa casa de jogo, Casa Lopes. Não bebia de cair. Mas, dava seus tragos. E principalmente gostava de dançar, além do que conhecia a fama de namorador.

Carlito tinha para zelar um nome e duas filhas. Chamou Maria, a cunhada mais nova, e lhe deu permissão para levar Yolanda e Odete à festa do Ramenzzoni. Aldo não poderia acompanhá-las. Não tinha convite, nem era operário da fábrica.

Quando o rapaz soube da tramóia do “sogrão”, ficou furioso. Imaginou a moça a rodopiar pelo salão com outro eventual pretendente. E agora? Não podia reclamar. Acabara de conhecer Yolanda, e poderia lhe perder.

Esta vida nos apronta cada uma…

VI.

Percebeu a jogada de Carlito. E, mais do que nunca, entendeu que era hora de conquistá-lo. A filha foi receptiva a seus olhares. Ficou com essa impressão. Estaria errado?

Não estava.

A impressão se confirmou na semana seguinte quando voltaram a se encontrar, ainda que à distância. Aconteceu o flerte e a promessa de lhe namorar seriamente.

— Vou falar com seu pai..

Quando Aldo começou a falar, Carlito fez uma expressão de desaprovação. No entanto, algo lhe garantiu que podia confiar no moleque. Era necessários antes lhe “passar um sabão”. Seria o primeiro namorado da menina e ele, Carlito, não estava para brincadeiras. Deu consentimento para que se falassem – e marcassem os dias que poderiam se encontrar. De preferência na casa dela e sob a vigilância atenta da irmã Odete ou do irmão caçula Domingos.

VII.

Três anos depois, Aldo e Yolanda casaram-se na igreja de São Joaquim, na paróquia de Nossa Senhora da Glória. Um casamento simples que resultou em três filhos. Nasceram primeiro as filhas Dorothy e Rosa. Na terceira gravidez de Yolanda, Aldo tinha certeza: seria um menino. Certeza absoluta em tempos que não existia nem a idéia dos exames de ultra-sonografia.

— Que nome vamos dar ao menino?

— Quem disse que vai ser menino, Aldo?

— Tenho certeza. Que nome vamos dar?

— Não sei. Escolhe você.

— Eu? Como chama aquele jóquei que ganhou o Grande Prêmio Brasil?

— Não, não… Assim não. Deixa… Eu mesmo escolho.

— Um nome que seja forte, representativo.

— Então, nos conhecemos num dia 29 de junho, lembra?

— Lembro. Lembro que você me largou sozinho para ir dançar no baile.

— Não tive culpa, Aldo. Foi meu pai que mandou…

— Sei, sim. Mas, o nome. Que nome daremos ao menino.

— Que tal Pedro Paulo.

— Pedro Paulo?

— É em homenagem aos santos…

— Pedro Paulo? Vá lá…

VIII.

E assim foi até o dia 4 de dezembro quando o garoto nasceu com 4,3 kg. Era mesmo um menino. Um palestrino. Aldo ficou tão feliz, tão feliz. Assim que entrou no cartório para registrar a criança, todos o cumprimentaram pelo primogênito. Parabéns para cá, parabéns para lá. O escrivão fez a tradicional pergunta:

— Então, que nome vamos dar ao ‘sofredor’ (óbvio, que o escrivão era corinthiano)?

IX.

Aldo lembrou do 29 de junho. Os olhos e a beleza de Yolanda. São Pedro e São Paulo. A rua embandeirada com balões chinezinhos. Estava mesmo emocionado. Lembrou mais: da raiva que ficou ao vê ir para a festa. Inevitável. Pedro Paulo, sim, está bem…

— Aldo, acorda! Qual o nome da criança?

— O nome? Hum, hum. O nome do meu pai… Rodolfo. Carlos em homenagem ao Carlito, conhece? Que tal Rodolfo Carlos Martino

X.

Quando voltou ao Hospital Maternidade Cruz Azul, Aldo levou a certidão e flores. Yolanda sorriu ao ler o nome do filho. Mas, como não sorrir? Como dizer não àquele marido encantador e turrão?

[Texto publicado no livro “Volteios – Crônicas, lembranças e devaneios”]
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