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A varanda (Parte V)

A novela blogueira chega hoje ao capítulo final, com as reflexões de um herói silencioso: o pai.

CENA 6 – A vida em tom sépia, como se fosse Carlitos…

Nunca foi de muito falar.

Também com três mulheres em casa, pouco lhe sobrava para opiniões e pareceres. Não reclamava. A mulher e as filhas — além da chacrinha que herdara nos arredores da cidade — faziam sua plena felicidade. Gostava de estar com elas. Divertia-se.

Aliás, sempre lhe aprontavam alguma. Como aquela vez, num shopping da Capital, entraram as três num improvisado estúdio fotográfico e cismaram em tirar uma foto com roupas de época. Foi obrigado a pagar esse mico. Mas, no preciso momento, vestido a caráter, imaginou-se o próprio Carlitos. Por isso, arregalou os olhos na hora do flash e se saiu muito bem. Todos que viam a foto da família elogiavam sua performance em tom sépia.

Destacou-se mais do que as três, quem diria?

Ficou melhor caracterizado que Belinha, a mais nova e, cá entre nós, a mais meiga. Era um doce de menina, carinhosa e sempre lhe dando uma atenção especial.

Pois não é que justamente Belinha estava lhe deixando preocupado. Andava amuada, sempre a cochichar com a mãe e a irmã.

Certamente, falavam do rapaz que não aparecera para as festas de fim-de-ano. Nem lembra direito do motivo que a filha alegou para a ausência. Ficou feliz, mas não contou para ninguém sobre o seu regozijo. Ela teria mais tempo para mimá-lo e lhe fazer companhia quando ia para a roça nas manhãs de sábado. Era uma delícia caminhar por aquelas trilhas rústicas, ouvindo suas histórias de garota destemida a enfrentar os desafios da cidade-grande, onde foi morar quando completou 18 anos.

Não sabia dizer se agora ela tinha 23 ou 24. Talvez 25. Estava formada e agora era doutora, mas ainda não estava satisfeita com os rumos profissionais. Era tratada como estagiária. Ora, não sabiam o talento que estavam perdendo.

Quando apareceu com a notícia do namoro, lógico, contou primeiro para a irmã, depois para a mãe. Foi o último a saber e por vias indiretas.

Não emitiu qualquer comentário.

Primeiro porque sequer sabia quem era o moço. Segundo porque não lhe davam atenção mesmo se tivesse estudado a árvore genealógica da família do sortudo – encantar Belinha era mesmo tirar a sorte grande na loteria da vida.

Sempre esquecia o sobrenome italiano do rapaz. Seria um ato falho?

Vamos ser sinceros. Não se sentia confortável sempre que os via junto. O moço tinha um jeitão sério, respeitoso. A menina era mais arisca. Grudava nele e não largava. De início, ficava sem jeito. Mas, aproveitava a situação… De bobo, ele não tinha nada.

Não desgostava dele, não. Ao menos, não usava aqueles bermudões pelas canelas, nem o boné com a aba para trás. Parecia um genro normal. O que já era uma notável conquista nesses tempos de MTVs, McDonalds e afins…

Agora, estavam ali, os dois, na varanda, enredados numa discussão sem fim. Ele próprio – o pai – já estava atordoado. Não sabia o que pensar. A filha talvez estivesse se precipitando. Não seria melhor pensar mais sobre o assunto. Ouvir as explicações dele…

Namoravam há tanto tempo…

Pôxa, essas mulheres nunca estão satisfeitas. As três. Eram os amores da sua vida. Mas, quando cismavam com alguma coisa, sai de baixo. Formavam um clube do Bolinha às avessas. Sabia o final de mais esse caso especial: o rapagão, que agora achava até simpático, estava rifado. Assim como o sonho que ele discretamente acalentava de ser avô ainda naquele ano que mal se iniciara. Mas, que prometia fortes emoções…

Silenciosamente (aliás, como era um hábito seu) e sozinho, resolveu brindar, com uma purinha e de uma golada só, os inefáveis desígnios daquilo que aprendemos a chamar de destino – inclusive o dele próprio. Já vivera tempo suficiente para saber que o amor, mesmo quando acaba, quando provoca dores e aflições, é a mais intensa e poderosa manifestação de vida.

Riu de si próprio e de toda a encrenca.

— Passará, passará… – gostou de repetir baixinho aquela certeza.

Afinal, todos estavam bem. Nada que duas ou três noites de sono pesado não curassem. Eram jovens e logo, logo, recomeçariam suas vidas como se esse primeiro de janeiro nunca tivesse existido.

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