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Sobre o hábito de barbear-se diariamente

Ele foi logo se desculpando:

— Sabe o que é? Dei um descanso para o rosto durante o Carnaval – e deixei a barba crescer.

Rimos da explicação desnecessária do amigo Professor – e entendemos logo que ele espertamente emendou a semana fora da metrópole.

Houve quem, ainda que timidamente, extravasasse uma pontinha de inveja. Menos pela barba por fazer, mais pelos dias de estio.

“Tive aula na quinta pela manhã. Quebrou meu esquema’, alguém lamentou.

Como minha jornada era mais prolongada – aula na quinta pela manhã, aula na noite de sexta, com uma colação de grau pelo meio -, não lamentei o que poderia ser – e não foi. Chamou minha atenção, no entanto, o hábito que certas pessoas ainda têm de escanhoar o rosto diariamente.

Escrevi “ainda têm” porque, se bem me lembro, o costume é do tempo do velho Aldo, meu saudoso pai.

Aliás, nesse tempo, barbear-se se compunha de todo um ritual, além de uma parafernália digna de registro: pincel, creme de barbear-se, loção após barba e o equipamento de corte personalizado que, diga-se, variava conforme o estilo de cada marmanjo. O do pai era de alumínio – e exigia toda uma ciência para enroscar uma peça na outra e depois no cabo de apoio. No meio da jabirosca, o Aldão encaixava, com todo esmero, a lâmina que era Gillette Azul – e não se admitia outra.

Já o Seo Nivaldo, pai do amigo Astro, nos impressionava com a destreza que manipulava uma navalha, típica dos barbeiros da época; um tantinho mais sofisticada, com cabo de madrepérola. Podíamos assistir ao ritual, mas Seo Nivaldo exigia silêncio absoluto. Qualquer vacilo – e um naco de sangue escorria pelo rosto.

Éramos garotos – e eu, particularmente, achava tudo aquilo muito chato. Imaginava, quando adulto, como escapar daquela sina. Os barbeadores elétricos (que já existiam, acreditem!) poderiam ser a solução, mas tanto o pai como Seo Nivaldo falavam horrores deles.

Para minha sorte (e sorte do pessoal da minha geração) lá pelos idos de 90, um filme assanhado povoou mentes e coração da moçada. Chamava-se Nove Semanas e Meia de Amor. O galã Mike Rourke fazia par e outras muitas coisinhas mais com a bela Kim Bassinger – e usava o que se convencionou chamar à época de “uma barba de três dias”.

Adotamos, sem cerimônia, a modinha.

Eu, particularmente, fui além.

Logo assumi a barba de cinco dias.

Prolonguei para uma semana, dez dias, quinze… Ou quando me dá na telha.

Vivemos tempos mais largados, mais soltos.

Aliás, só me ligo mesmo que preciso visitar o barbeiro quando algum gaiato começa a fazer alusão às festas de fim de ano e solta a simpática piadinha:

— Está se preparando para fazer um bico de Papai Noel, Rodolfão?

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