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Sorte grande

No carro, corto a avenida Bandeirantes, de fio a pavio.

Reparo – sem querer reparar – o tanto de prédios comerciais desocupados, com placas de “vende-se” e/ou “aluga-se”.

Sinal dos tempos. Economia arrebentada…

(…)

Tento lembrar o que existia ali e acolá.

Ali, vendiam barcos e lanchas. Fechou. Mais à frente, havia uma revenda de carros importados. Já era. Naquelas casas, tínhamos lojas de móveis de escritório. Quantas vezes, pensei em adquirir uma cadeira giratória para gabinete lá de casa, igual a que o Jô tinha em seu programa de entrevistas. Sem chance. Fica para próxima encarnação.

Se a Bandeirantes está assim – uma avenida que refletia a pujança de São Paulo -, imagino outras áreas da cidade!

E os trabalhadores, ó…

Engrossam o contingente de mais de 12 milhões de desempregados.

Lembro a fala desolada de uma socióloga, amiga minha:

– Logo, logo, o emprego formal será uma abstração.

(…)

Que conversa triste para um fim de ano!

Permitam-me mudar o rumo da conversa.

Já lhes contei essa história por aqui. Mas, vou recuperá-la, pois acho que cabe.

Vamos lá…

(…)

Aconteceu em um sábado à noite em que eu, por força do ofício da reportagem, aguardava o motorista do jornal vir me buscar após entrevistar algum bacanudo do teatro.

Meu ponto de encontro era em frente ao restaurante Gighetto, ali, na Avanhadava.

Reparei um senhorzinho que em vão tentava vender bilhetes de loteria aos frequentadores do lugar.

— Hoje, está difícil.

Ele me disse puxando assunto.

Concordei no ato, e também me pus a lamentar minha sina de trabalhador naquele sábado esplendoroso.

Desconfio que exagerei nas tintas – o que não é raro em meus relatos.

(…)

Tanto que o senhor logo tratou de atenuar o próprio labor.

Disse que as pessoas eram até carinhosas com ele – e sempre o ajudavam.

Talvez em respeito aos seus cabelos brancos.

Sem contar que já vira cenas de emocionar à porta daquele estabelecimento.

(…)

— Vi a dona Dercy Gonçalves ser aplaudida de pé por todos os frequentadores ao sair do Gigheto. Foi uma coisa espontânea, emocionante mesmo.

Em outra ocasião, ele lembrou que ofereceu “a sorte grande” a um casal que saía do mesmo restaurante. O rapaz, com ares de apaixonado, pagou o bilhete, mas não quis levá-lo.

— Meu senhor, fique com o número. Tomara que ganhe. Seria abusar da graça divina eu ganhar de novo. Hoje, eu já tirei a sorte grande. Olhe pra ela…

E abraçou a moça que estava ao seu lado. Lindíssima, por sinal.

(…)

Não esbocei qualquer comentário.

E ele continuou:

— Em uma noite como esta, neste mesmo lugar, vi uma cena triste. Um moço, assim da sua idade, chegou e o maitre perguntou a ele: “O senhor está só”? E o moço, assim da sua idade, respondeu:

“Sozinho, e mal acompanhado”.

(…)

Ainda bem que seo Elizeu, o motora, chegou para me resgatar.

Achei que o velhinho estava me provocando.

A mim – que não lhe comprei bilhete algum – e ao meu mau humor.

(…)

Tanto tempo depois, concluo, igualmente, desolado:

Sorte grande hoje é estar empregado. Sejamos guerreiros-meninos…

(*foto: monumento ao homem dividido, Espanha. arquivo pessoal)
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