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Tony Eterno

Está com um jeitão triste o domingo na Praia das Pitangueiras, no Guarujá.

Aparentemente, não há nada de anormal. Até um solzinho maneiro surgiu lá pelas duas da tarde. Mesmo assim, as pessoas caminham cabisbaixas. Falam em tom mais baixo e se comportam com discrição. Ou eu muito me engano ou até as crianças brincam sem a euforia habitual!

Vejo um surfista nativo chorando, sem qualquer constrangimento, ali no calçadão à beira do mar, em frente ao que aqui chamam de Feirinha. Não consigo entender o que o moço diz entre soluços em meio a uma roda de pessoas, que se mostram interessadas na história.

O que dá para ouvir é:

— Ele fez a coisa certa. Ele fez a coisa certa…

Só então reparo nos cartazes e faixas que falam em “saudades dos amigos”, “exemplo de solidariedade”, e uma que anuncia “Tony Eterno”.

Outro cartaz improvisado, feito à mão, convida a todos para a missa de sétimo dia “do amigo Tony Vilela” que se realiza logo mais ao anoitecer.

Nesse momento, ligo a pessoa ao fato. Tony foi uma das notícias da semana. O rapaz de 32 anos que morreu na manhã de domingo passado ao salvar quatro surfistas-turistas de afogamento. Ondas traiçoeiras e a correnteza não lhe deram qualquer chance, mesmo sendo ele um experiente surfista, conhecedor dos perigos do mar daquela região.

Seu corpo ficou desaparecido por dias – e só foi encontrado na quinta-feira, na praia da Enseada, a quilômetros de onde desapareceu.

Me sinto desconfortável. Desisto da caminhada. E volto sem entender os desígnios da vida.

Quer dizer que o rapaz estava por ali, posto em sossego, e se lançou ao mar furioso, com sua prancha, quando percebeu que desconhecidos corriam risco de morte? Ele resgatou os rapazes, mas não conseguiu se desvencilhar das ondas e do triste destino.

— Ele fez a coisa certa…, diz o amigo entre lágrimas e causou alguma apreensão no distinto público do calçadão — eu, inclusive.

Não estamos habituados a tanta generosidade. Para quanta coisa triste que acontece ao nosso redor – e pede nossa indignação e coragem – fechamos os olhos na maior. Deixamos que a vida se faça à mercê do "venha a nós o vosso reino".

Subo para a sacada do apartamento, desalentado – inclusive comigo mesmo e minha covardia diante de tantas tolices que imagino ser a tal coisa mais importante do mundo. Fixo os olhos num ponto qualquer do mar cinzento e agora nebuloso – e faço uma oração silenciosa.

À distância, vejo a Pitangueiras de sempre. No que resta do inverno, a movimentação é tímida, de carros e pessoas. As ondas, as tais ondas que levaram Tony, hoje parecem tranqüilas, inofensivas a lamber a ilhota.

A voz do surfista chorão e choroso volta aos meus ouvidos, e tocam os meus sentidos de homem da cidade grande. Da tal selva de pedra.

Logo vai chegar a Primavera e as cores se tornarão mais intensas, e vivas.

Mas, não teremos um herói entre nós.

O herói que fez a coisa certa e nos deixou como legado a esperança de dias melhores.

Será que aprenderemos a lição?

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