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Vanzolini

“E neste dia então…
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da avenida São João.”.

Morreu Paulo Vanzolini, compositor dos versos acima. Definitivos quando tratam das dores da paixão. A cara de Sampa. A Sampa de outras eras. Dos notívagos, da boemia, das paixões que dilaceram.

Talvez esta São Paulo que ele tão bem retratou na letra e na melodia de “Ronda” (melodia, aliás, que inspirou Caetano ao compor “Sampa”) não mais exista. Perdeu-se no lusco-fusco de uma madrugada que, de tão fluída e etérea, preferiu não ver raiar.

Vanzolini era compositor por “hobby” – ele mesmo disse numa entrevista a um jornal paulistano. Reconhecia não ter talento para músico. Não conseguia distinguir um tom maior de um menor. Mas, tinha alma de artista, daqueles que tem olhos para ver e dom para registrar dramas e vivências dos que vivem pelos becos e esquinas da vida.

“Levanta
Sacode a poeira
Dá a volta por cima”

Outro verso irrepreensível que a voz do saudoso Noite Ilustrada consagrou lá nos idos de 60. Também de autoria de Vanzolini que fez outros tantos e tamanhos, como “Praça Clóvis”, “Pedacinhos do Céu”, “Samba Erudito”, entre outros. Sempre preservando a essência do samba paulistano.

Mas, Vanzolini orgulhava-se mesmo de ser zoólogo e foi, com paixão e empenho, que ocupou a direção do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo por mais de 30 anos.

O Museu dos Bichos, como é popularmente conhecido no Ipiranga, situa-se dentro do Parque da Independência, caixão postal de São Paulo. Ficava bem próximo à sede da velha redação de piso assoalhado, onde trabalhei por vinte e tantos anos.

Era comum ver Vanzolini caminhar em direção à Cantina do Mário na hora do almoço. Por várias vezes, tentamos falar com ele sobre esta dupla faceta, de músico e pesquisador.

Recebeu o repórter uma única vez para falar do trabalho que ali realizava. Foi enfático na proposta da conversa. Ali, ele fazia ciência. Para conversar sobre o compositor, só se fosse numa noite qualquer, em qualquer mesa de um dos bares da cidade que tanto cantou…

Vanzolini tinha 89 anos.

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