Bloco tradicional de Santa Teresa, as Carmelitas (RJ)/Fernando Maia / Riotur
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O Borga leu a coluna A recordar os carnavais do passado e não se conteve. Soltou a bem-humorada provocação:
“Tríduo momesco é especial”.
Sim, eu confesso: nos alinhavos de ontem, fiz questão de usar a expressão, digamos, um tanto fora de época.
O amigo Borga aproveitou o embalo e me contou que, munido de violão, fez ontem um “sussurro de Carnaval” num asilo para 40 senhoras cadeirantes.
Foi emocionante, diz ele.
“Indescritível a reação que tiveram às marchinhas dos anos 30”.
É de se louvar a iniciativa do Borga nessas fraternais empreitadas.
Aplausos!
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Não sei se foi o Borga que criou a expressão “sussurro de Carnaval”. De minha parte, acho oportuno esclarecer que o termo “tríduo momesco” eu garimpei nas velhas crônicas do saudoso Carlos Heitor Cony na página 2 da Folha de S.Paulo.
Tenho centenas dessas crônicas guardadas e catalogadas em pastas. Eu as colecionava com rigores religiosos, diria. Recortava, datava e as guardava carinhosamente ano a ano.
São meu oráculo.
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Sem assunto para meus folguedos carnavalescos, busquei no arquivo inspiração para o post de hoje.
Vejam, Borga e amigos leitores, o que encontrei: O Carnaval e a Crônica.
Nesse texto, sempre em tom coloquial, Cony inspira-se em dois outros e ilustres cronistas, Rubem Braga e Humberto Campos, que, diante de sabe-se lá qual dilema, alinharam, nos respectivos textos, os versos das músicas que então ouviam por todos os cantos da cidade do Rio de Janeiro.
Vejam que curioso!
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No carnaval de 1933, Humberto Campos escreveu no jornal que lhe abria espaço:
“Meu bem, pra me livrar da matraca, da língua de uma sogra infernal, eu comprei um trem blindado pra poder sair no Carnaval. (…) Linda morena, morena que me faz penar, a lua cheia que tanto brilha não brilha tanto quanto o seu olhar (…).
“Até amanhã se Deus quiser, se não chover eu volto pra te ver, oh mulher. (…) Quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela. (…) Vai haver barulho no chatô porque minha morena é falsa e me enganou. (…) Foi Deus quem te fez formosa.
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Trinta anos depois, Rubem Braga preencheu uma página de revista assim:
“É ou não é, piada de salão, se acham que não é, então não conto não. (…) As águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar. (…) A história da maçã é pura fantasia, maçã igual àquela papai também comia. (…) Eu não sou água pra me tratares assim, só na hora da sede é que procuras por mim.
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E Cony, sempre e deliciosamente Cony, conclui, em texto de fevereiro de 1999:
“Mais 30 anos se passaram, e aqui estou eu tentando copiar os dois mestres. Para azar meu, não conheço, nem ouvi, nem soube da existência de alguma musiquinha para este Carnaval. Ando defasado, a última obra-prima que chegou ao meu conhecimento foi o ”Segura o Tchan”. Nem sei a letra toda, sei o título e acho que é o bastante.
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Isto posto, eis a verdade que não quer calar. Lembrei Cony que, por sua vez, lembrou Rubem Braga e Humberto de Campos, talvez pelos mesmo motivo: o que posso dizer sobre o Carnaval de 2026?
Estou voluntária e impiedosamente defasado dos eflúvios dos sons e batuques nativos.
Perdoem-me a indesculpável falha, pois nem sequer o título de alguma canção eu posso lhes oferecer como tema deste meu cotidiano blogar.
Assim, sem outra solução, dou-lhes folga de alguns dias.
Prometo voltar quando se aquietarem os berros e os sussurros do tríduo de Momo. que se anuncia midiaticamente o melhor de todos os tempos.
Divirtam-se!
TRILHA SONORA
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