Foto: Blog RCM/Arquivo
…
“Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”
(Mario Quintana)
…
Pergunta-me o amigo dias atrás, ele triste, triste pelos resultados das urnas.
“Rudi, onde foi que erramos?”
“Falam em mudança, em futuro, e votam pelo retrocesso, pela insensatez.”
Entendo o desalento do meu contemporâneo de idos tempos, profissional liberal, em todos aspectos “um humanista”, como gosta de dizer de si mesmo.
Sua tristeza dói em mim. Tento confortá-lo.
As pessoas são o que são. Não dependem de nossos erros e acertos, respondo.
Quer dizer…
Óbvio que santo, santo, neste século, só o Papa Francisco que eu saiba.
É bem verdade que não acertamos todas, mas fizemos o que estava ao nosso alcance.
Fizemos o que pudemos.
…
Uma necessária ressalva, campeão.
Em termos da redemocratização do país, do resgate dos direitos dos cidadãos, outros da nossa geração fizeram mais. Bem mais. Corajosamente mais. Foram à luta de peito aberto contra às ignomínias do autoritarismo ditatorial. Foram presos, torturados, assassinados brutal e cruelmente pelos senhores de então, próceres da malsinada Redentora que emboscou o povo brasileiro e nos infelicitou por 21 anos, de 1964 a 1985.
Lembro um exemplo trágico.
Meu professor de telejornalismo nos tempos da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, o jornalista Vladimir Herzog, foi torturado e sordidamente assassinado nos porões do DOI/CODI paulistano em 25 de outubro de 1975. Temerosa coincidência, esse infortúnio completará 51 anos no dia desta eleição de segundo turno.
…
“Pois é, companheiro. Os caras estão aí de volta. Com a desfaçatez de sempre. O cinismo peculiar e agora ameaçam tomar o Poder pelo voto. Repito: onde foi que erramos?” – ele me interrompe, cheio de medo das vilanias que estão por vir.
Penso alguns instantes para lhe responder.
Digo a vocês aqui no Blog: é uma dura questão que, vez ou outra, também me ocorre e assombra.
Especialmente quando olho ao redor – e vejo algumas pessoas que me são próximas, queridas, a defender os famiglicidas que fazem “arminha”, passam a boiada, querem destroçar a Constituição, tentaram um golpe calamitoso, negaram a vacina, zombaram das proporções letais da pandemia a encabeçar motociatas Brasil afora.
…
Ao amigo, prefiro amenizar a resposta:
“Talvez não tenhamos sabido passar o bastão dos verdadeiros valores democráticos e ‘humanísticos’ às novas gerações. Vacilamos em algum momento, queimamos a faixa, perdemos o time da competição chamada vida em sociedade”.
– Mas, na boa, não sei lhe dizer.
Repito:
As pessoas são o que são.
…
Ficamos em silêncio por instantes. Gentil como de costume, ele pagou nosso café no balcão da velha padaria – e saímos, algo mornos e sem nos falar, para continuar a habitual caminhada.
De repente, ele me pergunta:
“Rudi, você entrevistou o Ulysses Guimarães? E quem mais…”.
Ô lembranças, numa hora dessas!
…
Entrevistei o Dr. Ulysses, o Senhor Diretas, sim. Entrevistei o Franco Montoro, o Almino Alfonso, o Fernando Henrique Cardoso(então candidato a prefeito de São Paulo), o Zé Serra, Orestes Quércia, o ator e secretário municipal de Cultura, Gianfrancesco Guarnieri… Todo esse pessoal do campo progressista, à época da luta pelas diretas e pelo fim da ditadura, era capitaneado pelo amigo e então vereador Almir Guimarães, sempre que eles vinham, sozinhos ou em grupos, em campanha pelo bairro do Ipiranga. Nessas ocasiões, era obrigatória a visita à nossa Gazetinha…
Vou lhe dizer que um deles era o mais assíduo: Mário Covas, prefeito de São Paulo em 83/84. Ele e o Almir faziam da velha redação o ponto de encontro para suas andanças e realizações no bairro.
…
Tempo em que sonhávamos o sonho coletivo.
Sonhávamos com a construção de um Brasil democrático, soberano e pleno de justiça social.
“Rudi, Rudi… Quanta memória! Me diz agora: De que lado esse pessoal estaria na polarização que hoje enfrentamos?”
Oportuna pergunta, mas não lhe dei resposta.
As recordações falam por si.
E você leitor, o que acha?
Fariam ‘arminha’ com as mãos: Ou o “L” de Lula, presidente?
…
TRILHA SONORA
…


O que você acha?