Foto: de um dos grupos de WhatsApp de apoio ao Lula presidente
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“Calma lá, Salamão, calma lá…
É preciso sair da ilha para melhor enxergá-la.
A questão não é o Lula.
Não é o voto teoricamente ‘útil’ antipetismo.
Ser de esquerda ou não.
O Lula, com ou sem chapéu, não é o problema.
Lembra o governador Doria? Eles o espiantaram da vida pública.
O Doria está longe de ser um ‘esquerdopata’, como dizem. Foram as calças justas ou foi a queda de braço com o Estropício-pai pelas vacinas e o protagonismo do campo conservador?
Deixa eu lhe dizer, Salamão: o Lula é um dos principais líderes mundiais. Por isso, pela sua representatividade, é a bola da vez, o indesejável entrave aos que querem dizimar a democracia e jogar o Brasil no colo e na mão peluda de Trump e do neocolonialismo que hoje se impõe drástica e tragicamente mundo afora.
A Europa hoje se arrepende da total dependência que tem dos Estados Unidos em termos de segurança nacional desde o pós Guerra.
Daqui onde vivo, na Bélgica, já se tem claro há algum tempo que a onda extremista é avassaladora em contexto social muito parecido com o de 1939, que resultou na Segunda Guerra Mundial. Grassa solta uma enorme ansiedade nas pessoas como indivíduos e na sociedade em geral que, repare no detalhe definidor, não se enxerga mais como sociedade e, sim, como bolhas e tribos que se antagonizam e digladiam por questões supostamente ideológicas e/ou religiosas. Mas que na realidade é mero envólucro de insensatez, polarização e supremacia.
Você sabe, não sabe?, Salamão, que todo regime autoritário faz questão de escolher um inimigo coletivo a quem se arvora combater e assim se pôr em marcha e, de certa forma, cooptar a mente do grosso do contingente a quem manipula e conduz. ‘O gado’, como pejorativamente no Brasil.
O medo do ‘outro ideológico’ passa a dominar e conduzir as narrativas.
Vale lembrar a Alemanha nazista e a Itália do fascismo. O ódio aos judeus e às minorias, a exclusão social dos que não se alinhavam ou não lhes serviam. O preconceito. A sensação de mudança imediata, de que eram seres superiores. E a violência a quem se interpusesse aos seus interesses.
Trump e seus sabujos perseguem os imigrantes.
No Brasil, o Lula que representa o pobre e as minorias são os alvos.
Deixa eu explicar, Salamão.
Faço a analogia com o nazismo ou o fascismo – e encaminho a ressalva. Apesar de atuarem no mesmo campo do retrocesso aos valores humanísticos, ignorarem as conquistas sociais e múltiplas pós Revolução dos Costumes nos anos 60; apesar de apresentarem as mesmas características do desmantelamento das instituiçõs, eu lhe diria que são sim iguais, mas diferentes. Não sei se cabe rotulá-los como fascistas ou nazistas? Vivemos no século 21, uma era absolutamente desconhecida dada a imprevisibilidade do que chamamos de avanços tecnológicos – a robótica, a incontrolável difusão da comunicação digital, os insondáveis rumos da manipulação das massas pelos algorítimos.
Para onde caminhamos, amigo, sei não.
Sei que o problema não é o Lula, o que fez ou deixou de fazer.
Certamente, a História lhe fará justiça!“.
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Nota do Cronista/Blogueiro
Lá nos tempos de infância, no bairro operário do Cambuci, em São Paulo, os garotos rueiros da turma da rua Muniz como eu e o Nestor, o autor do texto, nos chamávamos carinhosa e provocativamente de “Salamão”. Não sei qual o motivo. Nunca soube. Mas era assim, na base da camaradagem, que nos entendíamos amigos.
Nestor mora em Bruges na Bélgica. Mudou-se para o Exterior ainda adolescente quando o pai, metalúrgico da Fábrica de Latas Americanas, precisou seguir para o exílio nos tempos da “Redentora de 1964”.
Só depois de muito tempo, já velhuscos, voltamos a manter contato por conta da internet. Primeiro, por e-mail; depois pelo WhatsApp – e foi assim que, no profundo da noite de domingo, conversamos sobre as eleições no Brasil. Na verdade, eu mais falei do que ouvi. Fui lhe passando, em tempo real, a falação que via e ouvia dos jornalistas e analistas políticos na TV. Todos esses com “brilhantes” teses dos reais motivos que resultaram na votação do primeiro turno.
Todos aparentemente isentões.
Ao nos despedirmos, já na alta madrugada de segunda, o Salamão Nestor escreveu apenas:
“Estamos naturalizando o ódio e a idiotia. Não é só o Brasil. O mundo todo está assim”.
Ontem no final da tarde, relendo as mensagens, decidi editá-las num texto único.
Tive a autorização do Nestor para publicá-lo.
“Tomara que te ajude em algo!”.
E me encaminhou (e retribuí) o fraternal abraço de sempre.
Valeu, Nestor, amigo Salamão…
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TRILHA SONORA
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