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A vida é uma bênção

Foto: Leila Kiyomura

Quem não conhece Carlitos, o célebre personagem de Charles Chaplin, o adorável Vagabundo de tantos filmes célebres e tantas emoções?

Todo mundo, creio eu.

De minha parte, lhes digo que conheço o genial artista e, por bênção e encantamento, tive um Carlito na família.

Carlito, assim no singular, era o apelido do meu avô, de nome pomposo – como ele mesmo dizia, “quase um título de nobreza”:

Carlos Humberto Vitório Avezzani.

“Tenho origem procedência e, se bobear, algum castelo antigo nos arredores de Nápoles, na Itália” – dizia todo orgulhoso e bravateiro.

Aos meus olhos de menino, o vô Carlito era igualmente genial.

Para muitos na família, era apenas genioso – e gostava de um bom copo de vinho.

Fiquemos nessas linhas com a minha versão, óbvio.

Por alguma razão que desconheço, e ele nunca me explicou, tanto uns quanto outros o chamavam de… Carlito.

Como lhes contei no post Encontros e desencontros nas crônicas que Maneco escreveu, aproveito o ensejo para lhes falar do vô Carlito. Vou no embalo de um texto em que o autor Manoel Carlos se põe a descrever o garoto que foi e o tanto que observava o avô nas visitas que lhe fazia aos domingos.

De forma muito pessoal, como só e acontecer quando leio algum cronista que admiro, eu me enxerguei vivendo as mesmíssimas situações diante do vô Carlito nos tempos em que era garoto e ainda me chamavam de Tchinim.

Ele, a vó Ignês (ambos aniversariavam em datas distintas, mas no início de fevereiro, não consigo lembrar) e o Tio Neno moravam há milênios numa casinha modesta na rua Lavapés, no bairro operário do Cambuci.

Morávamos perto – na rua Muniz de Souza – e a lembrança que eu tenho é de que todos os dias – por um ou outro motivo que me escapa – eu batia ponto por lá à tardinha.

Não conheci meus avós, os Martino – Rodolfo e Rosina – por parte de pai. Morreram antes de eu nascer.

Daí minha convivência diária e marcada por afetos com os Avezzani.

O vô Carlito acabou sendo assim uma espécie de preceptor.

Dá para dizer que com ele absorvi minhas primeiras considerações sobre a arte e ofício de viver e, ao menos, tentar ser feliz.

Já escrevi aqui, no Blog, um cem números de vezes, sobre ele, mas não custa lembrar.

Ele se dizia natural de Cascatinha (interior do Rio de Janeiro), filho de pais napolitano, era chapeleiro da Fábrica Ramenzzoni, também no Cambuci de tantas lembranças, onde sempre morou desde que veio para São Paulo, garoto ainda.

O vô tinha problemas de locomoção “por causa de uma hérnia mal curada”.

Seu posto de observação era a janela que dava para a rua Lavapés. Dali enxergava o mundo, cantava “Luar do Sertão”, contava suas histórias e filosofava enquanto acompanhava o ir e vir dos bondes.

Eu, diria que maravilhado, o acompanhava nesses fins de tarde que se perderam no fluir do tempo.

– A vida, Tchinim, é uma benção, um dom… Mas, temos que fazer por merecê-la.

Outro ensinamento do vô Carlito era o de ficar atento “aos dois lados da moeda, a cara e a coroa”.

Por extensão, o sim e o não convivem inexoravelmente com nossos atos assim como a luz e a escuridão.

Talvez eu não tenha sido um bom discípulo. Aprendi com ele, no entanto, que a vida nos enreda e nos exige forte. Ao mesmo tempo, que tenhamos a desfaçatez de não nos levarmos tão a sério. A nós, aos nossos quereres, à nossa rotina.

Algo assim como a leveza de um filme do Carlitos – que, como já lhes disse, era o apelido do meu saudoso avô.

A vida é uma bênção.

TRILHA SONORA

A poesia autenticamente brasileira de Cátulo de Paula da Paixão Cearense, com melodia de João Pernambuco e a voz do saudoso Jair Rodrigues…

Leia também:

Vô Carlito

      

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