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Dean Martin, o primo do Calabrês

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Foto: Reprodução/capa do livro – Dean Martin: King of the Road/Divulgação

Permitam-me que continue hoje no embalo da postagem de ontem:

Uma linda canção do passado.

Deixem que eu explico.

Como meus bons e fiéis leitores (ainda estão aí?) sabem, escrevi o arrazoado de ontem depois de ouvir Dean Martin cantar uma bela canção (“By the Time I Get to Phoenix”) dos meus tempos de jovenzinho – e que eu até então só conhecia na interpretação de Johnny Rivers.

Acabei por lhes falar mais de Rivers do que propriamente do ator e cantor americano que, desconfio, ainda que meio na base do inconsciente, era a motivação da crônica.

Não tenho lá grande controle de para onde as palavras me levam quando me ponho a batucar letrinhas, seja no velho lap-top, seja improvisadamente no teclado do celular.

Improvisadamente…

A vida, meus caros e raros, é um grande improviso.

Pois então…

Escapou-me ontem de dizer – e talvez fosse o principal que eu tinha a lhes dizer – que toda vez que ouço ou leio algo a respeito de Dean Martin, inevitál me é: lembro do meu pai, o Velho Aldo.

Os dois nasceram em 1917. O pai nasceu em maio; Dean, em junho.

Em função dessa tola coincidência de datas – e também pelo sobrenome artístico de Dean, o Martin, o pai – Aldo Martino – deu de contar grandezas e espalhar que era primo “em primeiro grau” do ator ítalo-americano.

Meados dos anos 50, virada para os 60, talvez. Dean Martin fazia enorme sucesso nas telas dos cinemas na inesquecível parceria com o notável Jerry Lewis.

O pai soltou a novidade na roda de amigos, numa das noitadas de “Patrão e Sotto” no Bar Astória, na rua Lavapés, onde a italianada de amigos se reunia sempre que possível. Ou seja, quase sempre.

Não sei se foi efeito da cerveja.

Não lhes garanto. Digo apenas que, como prova irrefutável do parentesco, acrescentou por conta e risco que o nome real da celebridade era Dino de Martino.

(Não havia Google à época, nem IA, Wikipédia, nem sequer qualquer outra engenhoca do tipo.)

Não preciso dizer, mas insisto – e digo: seguiu-se à revelação, um silêncio maroto nos salão do fundo do Astória.

Italianos, oriundi e agregados desconfiaram.

Reza a tradição da Velha Bota que, com essas coisas de família (ou Famiglia), não se deve brincar.

Se o Calabrês (apelido do pai) estava dizendo…

Bem, o pai se empolgou com a papagaiada.

Inventou que o irmão mais velho do vô Rodolfo (o pai do meu pai) não se adaptou ao Brasil. Muito calor. “Terra estranha, sem neve e infestada de mosquitos”. Por isso, foi morar nos Estados Unidos e lá, sim, “fazer a América”, sonho de todo e qualquer imigrante.

A turma pareceu acreditar na balela.

Mas, alguns minutos depois e outras tantas rodadas de cerveja, e todos na grande mesa saudarem o Velho Aldo e seus laços familares.

Quem puxou o brinde foi o Sr. Garófalo que era o cantor e uma espécie de porta-voz da turma.

Disse ele:

“Se o Ardo é primo do Dean Martin como diz, eu sou irmão do Frank Sinatra, não se fala mais nisso!”.

Aí foi o Armando que tomou a palavra. Ajeitou os cabelos retintos de um acaju que não consta entre as cores do arco-íris, discursou solene:

“Se o Aldo é primo do Dean Martin, se o nosso cantor Garófalo é irmão do Sinatra, eu modestamente quero lhes dizer que sou afilhado do Humprey Bogart. Brindemos!”.

O Patara, conhecido como ‘pé-de-valsa’, aproveitou a deixa:

“Se o Aldo é primo do Dean Martin, se o Garófalo é irmão do Sinatra e se o Armando Caju, afilhado do Bogart, então, meus caros, eu sou o próprio Fred Astaire. Ou não? Perguntem às dançarinas do Avenida?”.

E assim foi…

Um a uma os italianinhos do Cambuci foram se identificando com nomes famosos da época…

Uma farra de velhos garotos crescidos – e saudosos das coisas da Itália, terra de origem de alguns ou dos pais de outros

Gosto de lembrar essa história.

Lembro deles como senhores de uma leveza d’alma e senso de fraternidade, raridade das raridades em nossos dias.

Termino esclarecendo o que é preciso esclarecer:

Correto dizer que Dean Martin nasceu em junho de 1917. Que é ítalo-americano e que tem como prenome Dino…

Dino Paul Crocetti.

(E não se fala mais nisso.)

TRILHA SONORA

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