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Tá chegando a hora…

Vinicius Jr. autografa camisa da Seleção Brasileira/Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Ocorre-me a lembrança…

Vou-lhes contar.

Então, podem sentar, acomodem-se, pois lá vem história.

Os jogos deste Mundial de Futebol que têm sido realizados nos estádios do México se fazem sob o embalo especial de uma torcida, digamos assim, mais castiça, autêntica. Reparem, seja qual for a peleja, sejam quais forem as equipes em campo, lá pelas tantas ouve-se o coral de vozes a entoar a dolente melodia e os versos de uma canção tradicional, Cielito Lindo, escrita em 1882, por Quirino Mendoza y Cortês.

É uma “rancheira romântica”, como dizia a jovem professora que, lá nos antigamente, teimou em vão a me ensinar a tocá-la ao violão numa das poucas aulas que tive no conservatório perto de casa. Logo ela e eu (a bem da verdade, mais eu do que ela), percebemos que o garoto aqui não tinha a menor vocação para a música – e desistimos a bem do público em geral, dos acordes e das lições futuras.

Mas, não é do meu destalento que quero lhes falar.

A lembrança que me ocorreu logo cedo foi a seguinte. Ali pela virada dos anos 50 para os 60, quando o pai me levava aos estádios para ver os jogos do Palmeiras, acreditem: também por aqui usávamos a versão brasileira da tal rancheira para provocar o adversário que, por óbvio, deveria estar em desvantagem no placar.

Verdade verdadeira.

Lá pelas tantas da partida, quando esta se encaminhava para os minutos finais, a cantoria tomava conta das arquibancadas do Pacaembu ou do velho Parque Antárctica para comemorar a vitória do nosso verde esquadrão. Só que usávamos os versos abrasileirados por Henricão e Rubens Campos, e, como não poderia deixar de ser, em ritmo de samba.

Era o hino de todas as torcidas.

Uma festa, um derrame de alegria e emoção.

Ô saudade!

Ai, ai, ai, ai…

Tá chegando a hora.

O dia já vem

Raiando meu bem

Eu tenho que ir embora”.

Dou o contexto.

Não havia torcidas organizadas.

Os torcedores não iam uniformizados com a camisa do time ao jogo.

Levávamos, quando muito, umas bandeirolas mixúrucas nas mãos – e vasto sorriso no rosto.

Corações e expectativas a mil.

Não havia torcida única, por supuesto.

Cada clube tinha a própria charanga para animar a moçada.

Gregos e troianos, palmeirenses e corintianos, espalhavam-se pela arquibancada e geral sem qualquer restrição de setor, e civilizadamente. Ou quase…

Vez ou outra, saía um quiproquó – sopapos, socos e pontapés -, mas logo chegava a turma do ‘deixa-disso-wilso’ – e assim seguia o jogo e a vida.

Era legal, divertido.

Nem pior, nem melhor.

Apenas, diferente.

Outros tempos, meus caros e raros e preclaros.

Uma curiosidade do desmemoriado aqui.

O que é a natureza? – como diria o humorista Zé Trindade.

Não me recordo se, nos mundiais de 1970 (Brasil, tricampeão) e 1986 (Argentina, bicampeã) também realizados no México, os torcedores de então cantaram Cielito Lindo.

Desconfio que não…

Sei que agora cantam – e lindamente.

Enfim, e por fim.

Faço dois registros:

1 – Por aqui, a música foi gravada originalmente por Carmem Costa em 1942 – e, como só acontece no Brasil de todos os pandeiros e do mulatro isoneiro, fez um baita sucesso no carnaval daquele ano. Olaiá…

2 – Logo mais, a partir das 19 horas, a seleção brasileira enfrenta a Escócia na terceira rodada da Copa do Mundo de 1926.

Ou seja, tá chegando a hora…

TRILHA SONORA

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