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A casa que é um navio…

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Foto: Arquivo Pessoal

Ando pela casa às escuras, de uma janela para outra, madrugada adentro.

Não sei se são os dias, os acontecimentos, essa calamidade toda que aí está…

Não sei. Ando com o sono curto, por isso, talvez.

Sono entrecortado por sonhos dos quais esqueço no instante em que acordo, mas que não causam boas sensações.

Há sempre uma questão em jogo, antiga, indefinida, que retorna de abissais cavernas da memória ou coisa que o valha – e me escapa a solução.

Então, desperto. Levanto a contragosto. E perambulo pela sala a olhar a noite, as estrelas (se estrelas houver) e as luzes esmaecidas de uma cidade – enfim, e por fim – vazia.

Muitas vezes, rabisco na mente o texto que escreverei assim que se fizer a manhã.

Em outras, tento lidar com os fantasmas e as aflições que, a essas horas, soam bem mais pesadas, angustiantes.

Numa dessas jornadas noturnas, tentei disfarçar.

Me pus a contar as janelas acesas dos prédios ao derredor. Mesmo os mais distantes.

Não cheguei a fechar o balanço. Parei na casa das três dezenas.

Nunca fui bom de contas.

Imaginei, então, quem seriam os insones, como eu…

O que os aflige?

O que vivem neste preciso instante em que todos (ou quase todos) dormem o sono dos justos e dos não tão justos assim?

Perguntas sem respostas.

Então, por força das circunstâncias e também da minha fragilidade, me faço solidário a cada uma das pessoas que, no recôndito do lar, fica a esgrimir tristezas e anseios que nos são, desde sempre, inerentes à alma e ao coração.

Somos humanos, finitos – e, no mais das vezes, abraçamos ternamente a ilusão de ser feliz.

Por isso, ligo a luz do abajur próximo à janela.

Dou sinal de vida – e me integro à banda dos notívagos e à música do silêncio.

A eles – e a mim -, saúdo a manhã que não tarda e, mesmo que vagamente, nos traz  a esperança (quase certeza) de dias mais promissores.

Teimosos que somos, insistimos na fé e na coragem.

A eles – e, se me permitem, a mim – lembro agora, como bússola, o trecho de uma crônica antiga do grande Rubem Braga (1913/1990) que se intitula A Casa Viaja no Tempo. 

Talvez nos seja útil para entender outras tantas madrugadas iguais que estamos a enfrentar.

À distãncia, mas unidos:

“A casa não é mais a mesma, a casa não é mais a casa, é um grande navio que vai singrando o tempo, que vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada domingo…”

Boa semana, amigos. Saúde. E, se possível, fiquem em casa!

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