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Cabeça pode, cabeça explode… Ou não?

“Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
O coração tranquilo”

II.

Dia desses – acho que foi segunda -, usei os versos do mantra yogue, que o cantor/compositor Walter Franco transformou em canção nos anos 80, para acalmar os ânimos do grupo de amigos, no whats, que teclava sem cessar sobre as aflições do dia e da semana que mal se iniciara.

Horrível.

Tosco.

Tenso.

Sinistro.

Eram essas as mais amenas das qualificações dos dissabores do cotidiano que compartilhávamos.

III.

A conversa/teclada se arrastava. Os minutos voavam.

Usei a artimanha da poesia cantada para acalmar os ânimos, confortar a alma e encaminhar o boa-noite a todos.

Bom dormir com o coração e a mente em paz.

Todos concordaram:

Combatêramos o bom combate…

IV.

Dia seguinte.

Lá vem o questionamento de parte da turminha – os mais novos, principalmente.

Gostaram do recado, mas quem é Walter Franco?

V.

Olaiá…

Que vacilo! Meu e da turma.

Meu porque imaginei estar falando de alguém que todos conhecessem. Que ainda “bomba” nas mídias.

Da turma, e de todos, pois todos deveriam conhecer a obra deste compositor de perfil raro na música popular brasileira.

Paulistano, 72 anos, Walter Franco foi um dos expoentes da chamada ‘Geração de Briga’ que enfrentou todas as barras do arbítrio e da ditadura dos anos 70 para dar vida e voz às nossas manifestações e sentimentos.

Era considerado um autor maldito por não pertencer a nenhuma corrente de música regional ou pertencer a este ou aquele grupo. Outros viam nele um compositor de vanguarda pelas experiências sonoras que desenvolvia ou por versos tão inusitados quanto: “O sorriso do cachorro/tá no rabo. ”

VI.

Nos anos 80, enfileirou hits como “Serra do Luar”, “Vela Aberta”, “Feito Gente” (que está na trilha de Os Dias Eram Assim”), “Respire Fundo” e o supracitado “Coração Tranquilo”, entre outros.

Uma de suas canções fez sucesso na voz de Chico Buarque, e é bem emblemática tanto para aqueles anos duros como para os tempos que ora vivemos.

Chama-se “Me Deixe Mudo”;

“Não diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo
Seja num canto
Seja num centro
Fique por fora
Fique por dentro
Seja o avesso
Seja a metade
Se for começo
Fique à vontade
Não me pergunte
Não me responda
Não me procure
E não se esconda”

VII.

No entanto, o grande momento de Walter Franco foi no Festival Internacional da Canção, de 1971. Franco foi finalista com a bombástica “Cabeça”:

“Que é que tem nessa cabeça, irmão?
Que é que tem nessa cabeça, ou não?
Que é que tem nessa cabeça, saiba irmão.
Que é que tem nessa cabeça, saiba ou não?
Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode, irmão.
Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não.
Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão
Cabeça pode, cabeça explode, ou não ou não ou não…”

Os censores de plantão nada entenderam da letra falada, dos rifis rasgados e ásperos das guitarras, da performance de Walter Franco, todo de branco, e ensandecido.

Resolveram, então, intervir.

VIII.

Assim que souberam que o júri a escolheu como a vitoriosa da fase nacional do FIC, pressionaram a Globo (organizadora do festival), destituíram Nara Leão da presidência do corpo de jurados e deram a vitória à festiva “Fio Maravilha”, de Jorge Ben Jor, interpretada bizarramente por Maria Alcina.

 

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