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Caio, 70 anos

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Olha, antes de o ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, essas coisas que não se dizem assim costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?

Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme de todas essas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver…

Não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal…

Mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio?

Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos os outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs.

Não sei, não sei…

Porque todo mundo compra maçã antes de viajar?

(…)

*Trecho inicial do conto Para uma Avenca Partindo, de autoria do jornalista, dramaturgo e escritor Caio Fernando Abreu que hoje completaria 70 anos.

Caio nos deixou em fevereiro de 1996.

Foi um dos pilares da literatura brazuca do final do século.

Suas obras ainda hoje repercutem e, como se Caio fosse um Raulzito, um Cazuza da palavra impressa, fazendo a cabeça de uma geração de garotos mais descolados, digamos assim.

Há coisa de dois ou três anos, coordenei uma Oficina de Leitura sobre contos e crônicas – e me surpreendi com o interesse dos jovens pela narrativa de tom existencialista e envolvente deste gaúcho de Santiago.

Para Uma Avenca Partindo consta do livro Fragmentos – 8 histórias e um conto inédito, antologia publica pela L&PM Pocket, em 2000, com organização de Luciano Alabarse.

Hoje, o Google, com esta ilustração na sua página inicial, lhe faz uma justa e sensível homenagem.

Ele e sua obra, mais do que merecem.

É isso…

*(Foto de abertura: Leila Kiyomura)

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