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Escova e o padroeiro

Recebo um telegrama do Escova, o amigo e ombudsman do Blog que desapareceu, sem deixar vestígios, há algumas muitas semanas. Diz que está em Santiago de Compostela para as festas do padroeiro da cidade que hoje, 25 de julho, têm seu ponto alto.

E mais: não tem data para voltar ao Brasil.

Não está com vontade nenhuma.

Prefere torrar todos os trocos que guardou vida afora – e, no melhor estilo Escova de ser, depois ele vê como fica a situação.

Por enquanto, reafirma, quanto mais longe melhor.

Escova anda muito decepcionado com as querelas do País.

Mesmo assim, promete rezar por dias melhores para todos.

E, pelos amigos, especialmente.

II.

Fiquei feliz com as boas novas.

Andava preocupado com o amigo e repórter dos tempos da velha redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor.

Somos remanescentes daquele grupo de jornalistas, boêmios e desencanados que, bem ao nosso modo, fizemos história nas quebradas do Sacomã e adjacências. Sinto falta das nossas conversas. Mas, entendo perfeitamente a ausência e o desalento do amigo com o Brasil de hoje.

Só não tenho a mesma coragem para, na virada dos sessenta e tantos, por o pé na estrada.

Desconfio que só o Escova mesmo.

III.

Houve um tempo em que também me imaginei um peregrino da fé pelos caminhos de França e Espanha. Assisti inclusive a algumas palestras e cheguei mesmo a me filiar a Associação dos Amigos de Santiago de Compostela.

A ideia me seduzia.

Andava confuso – e pensei que essa auto-introspecção poderia me ajudar a decifrar alguns enigmas existenciais.

Não lembro se o Escova me acompanhou nessas paradinhas.

Diria que à época o amigo fazia jus ao apelido de Don Juan das Quebradas. A pegada de peregrino não era bem com ele, não.

Também não me recordo de conversarmos sobre o assunto.

Daí, a surpresa de hoje. A boa surpresa.

IV.

Desisti de fazer o caminho na boa, nem me dei conta.

É que foram aparecendo tantas e tantas imaginárias “montanhas” a percorrer por aqui mesmo no meu dia a dia. Quando dei por mim, minhas crises pessoais já haviam ido para o saco e o negócio era – e sempre foi – continuar caminhando. Sem saber bem para onde, sem saber bem o porquê.

Sempre fui assim.

Deixo que a vida me leve. Sem grandes planos, com as bênçãos da Virgem Maria e de todos os santos – inclusive São Tiago Maior.

V.

Há coisa de dez anos, pouco mais, pouco menos, aproveitei uma viagem à Espanha para conhecer a lindíssima catedral de Compostela, onde aportam, em frangalhos, mas felizes que só, os caminheiros.

Foi uma experiência e tanto.

Explico: fui de avião mesmo.

Aliás, essa é a única dúvida que tenho em relação ao Escova.

Como chegou até lá?

Não me surpreenderia se a resposta fosse mais ou menos assim:

“Também não sei, compadre. Vim de taverna em taverna, como nos áureos tempos em que fechávamos os botecos do Bixiga, e, quando me dei conta, já estava aqui.”

VI.

Esperar o quê de um cara que, em tempos modernos, ainda envia um telegrama?

Que Santiago o proteja e a todos nós.

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