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Escova e o policial

Não fez por mal.

A bem da verdade, não fez por mal, nem por bem.

Apenas aconteceu, como aliás as coisas sempre acontecem na vida do amigo Escova, com quem trabalhei na velha redação de piso assoalhado.

Ao passar o documento do carro para o policial que o fez parar numa blitz, foi também a singela nota de cinquentinha.

Uma grana que, diga-se, nem era do nosso amigo, também conhecido como o Dom Juan, das quebradas do Ipiranga, Sacomã e adjacências.

II.

Foi a irmã que lhe deu para comprar um remédio em uma farmácia naquela região de São Paulo que a mana jurava vendia “bem mais em conta” as tais pílulas de rejuvenescimento.

Tentou explicar que o que ela ouvira era ‘cascatol puro’.

A irmã era vidrada em ouvir rádio AM.

Certamente caíra no conto de algum ‘comunicador’ ávido por garantir o patrocínio de algum laboratório miraculoso.

Argumentou o que pode.

Ela, porém, insistiu para que fizesse o favor a ela que nunca lhe pedira nada e cuidou dele quando era criança e agora, homem feito, nem lhe dava atenção, nem se importava se ela estava bem ou mal de saúde e…

III.

Diante de tantos e tamanhos argumentos, deu-se por vencido. Pegou a nota, dobrou e tascou na carteira que tinha em mãos – e nem se deu conta de onde a colocara Na carteira que o amigo despachante Patara lhe dera como brinde quando pagou a última parcela do IPVA e fez o licenciamento.

Agora estava ali. Enroscado até o pescoço.

Preferiu nem discutir quando o policial ‘caxias’ pediu que o acompanhasse ao Distrito “para explicações”.

O homem não gostou do que entendeu ser uma tentativa de suborno.

A prova , aliás, era inconteste.

IV.

Escova jurou que tudo não passava de um mal entendido.

Estava voltando do trabalho, cansado, depois de uma jornada que invadira a noite para dar cabo das pendências que se acumularam sobre a sua mesa.

Fim de ano é sempre assim. Há uma debandada geral nas redações – todos querem férias e os poucos que ficam trabalham por três.

No afã da batalha da próxima edição nas ruas, esquecera o pedido da irmã, a farmácia, a grana na carteira. Esquecera até o crachá da empresa no pescoço.

— Sou um trabalhador.

A frase se perdeu, solta no ar.

V.

Tudo o que Escova queria era ir para casa. Ansiava por uma noite de sono daquelas em que nem se tem ao trabalho de sonhar.

Mas, não.

Agora estava ali à espera da autoridade-mor do Distrito que talvez o entendesse e logo o dispensasse. Talvez…

VI.

Foi quando ela chegou – e fez-se a luz.

* Amanhã continua…

** ILUSTRAÇÃO: um jabazinho básico do meu livro. Tem na Livratria Cultura. Tem na loja virtual da Livraria Direta – http://www.lojadadireta.com.br/produtos_descricao.asp?lang=pt_BR&codigo_produto=529

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