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Incêndio destrói o Museu Nacional

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Terrível, a notícia me surpreende no início da noite deste, até então, sereno domingo enquanto leio um breve perfil de Oscar Nyemeier na antologia Os Segredos Todos de Djanira & outras crônicas sobre Arte & Artistas, do maravilhoso Rubem Braga.

O livro póstumo foi publicado em 2016, pela Autêntica, e só agora me chega às mãos e aos olhos.

Tenho um daqueles estranhamentos indefiníveis diante da placidez da narrativa que encontro nas páginas e a imagem cruel que vejo na TV.

(…)

Nosso maior cronista, com a elegância de sempre, desfia na coleção de textos curtos que fez, entre as décadas de 50 e 80, a indelével preocupação em enaltecer lídimos valores da cultura pátria. Artistas e manifestações. Quase a nos lembrar, a cada linha, que um país que não respeita seu patrimônio imaterial, a cultura e a identidade do seu povo é lamentavelmente um país que não merece ser livre, além de comprometer o próprio futuro.

(…)

Todo cronista sincero, penso, é um sonhador. Alguém que se propõe a revelar ao íntimo de quem os lê nada além do que o próprio homem nas venturas e dissabores de sua inalienável Humanidade.

Somos únicos, e somos todos.

Não sei se me entendem…

(…)

Se a coletânea inspira, as imagens da TV mostram a realidade de uma Nação também – e emblematicamente – a arder em egoísmos e desmandos.

Ouço um senhor na TV dizer contristado:

– Assistimos impotentes a uma perda inestimável. Para ciência, para o Brasil, para o mundo…

(…)

Se os amigos me concedem uma digressão, quero lembrar-lhes: minha dissertação de mestrado teve como objeto de estudo as estratégias comunicacionais que deram embasamento para a realização de uma reforma orçada em 9 milhões de dólares que revitalizou o Museu Paulista da Universidade de São Paulo, nosso popular Museu do Ipiranga.

Foi em meados dos anos 90 e o responsável pela hercúlea tarefa foi o diretor do Museu, o saudoso historiador José Sebastião Witter. Posso dizer que única e exclusivamente.

(…)

Foi Witter que, empossado em 1994, descobriu que o centenário prédio do Museu corria sério risco de desabar dada à incúria e ao abandono a que foi relegado um dos símbolos da Pátria.

Foi Witter que tratou de reunir os poderes públicos (sempre recalcitrantes), a iniciativa privada e as diversas comunidades que compõem o Museu do Ipiranga (a USP, o Governo do Estado, a Prefeitura, o Governo Federal e as entidades representativas do próprio bairro do Ipiranga) para arrecadar fundos e brecar a calamidade previamente anunciada e (se as coisas permanecessem na mesma estagnação) irreversível.

Foi dele, diria, o brado heróico e retumbante.

(…)

No limiar do novo século, o Museu do Ipiranga resplandeceu impávido, a receber novamente seus milhares de visitantes semanalmente.

Chegou a ser o segundo mais visitado do país. Só perdendo para o Imperial de Petrópolis.

(…)

Witter aposentou-se em seguida. Merecidamente.

E o que aconteceu a partir das administrações que o sucederam?

O fato: o Museu do Ipiranga está fechado à visitação pública há coisa de três ou quatro anos. Abandonado e outra vez periclitante. Dizem que reabrirá em 2021. A depender das próximas gestões, de quem vencer a eleição para o Governo do Estado, para a Presidência ou quando algum abnegado heróica e corajosamente se dispuser a lutar pelo Museu, pelo patrimônio cultural do Brasil e por nós.

Foto: Tânia Rego
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