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Jeremias, o interventor

Até parece aqueles velhos causos que o grande Stanislaw tão bem relatava em suas crônicas diárias – e que eram “a cara” do Brasil nos anos 60. No entanto, o ocorrido se deu aqui mesmo em São Paulo, em um dos nossos valorosos bairros periféricos que não sou louco de nominar porque não quero confusão pro meu lado. Conto o milagre, mas não deduro quem são os santos (que, aliás, não há nenhum nessa historieta). Vou trocar também o nome de três dos quatro personagens. De verdadeiro mesmo, fica o Manoel, que é o dono da padaria e, como tal, dificilmente teria outro nome. Mesmo se chamasse Afonso, para os mais abusados da freguesia seria sempre o Seu Mané.

Acontece que o Seu Mané vivia um drama. Tinha uma mulher que não era fácil e uma ajudante de cozinha, toda roliça e jeitosa, que se fazia de difícil.

Dona Luzia, a esposa, não dava mole para o marido. Não sei se desde sempre cultivava o estilo “buzinaço” ou se foi a presença de Jacira, a tentação, que lhe acirrou os ânimos e a caça impiedosa a tudo o que o pobre Manoel fazia e/ou falava.

– Assim não dá. Seu Mané tá lascado, desse jeito. É um esporro atrás do outro. A Dona Encrenca não dá folga pro coitado.

Com licença, apresento a vocês, meus queridos cinco ou seis leitores, o Jeremias, o autor da fala acima. Como podem ver, ele já demonstra toda a sua indignação com a situação. Jeremias, vez em quando, qalmoça por lá, mas gosta mesmo de terminar a tarde na padoca. “Só na cervejinha, ôô…” Sente-se à vontade com a rapaziada, bota sua banca, conta suas lorotas e está na bronca com a Dona Luzia.

Não quero tomar partido, longe de mim. Mas, ele tem razão. Dona Luzia trabalha pra caramba, é verdade. Ajuda no que for preciso. Só que, em compensação, não perde uma para esculhambar o simpático Seu Mané (a freguesia gosta dele). Discorda de tudo o que ele diz ou pensa dizer, chama a atenção do pobre (pobre, não; que Seu Mané tá bem de vida) na frente de todo mundo e, não contente, gosta de dizer que, sem ela, a luminosa padaria Flor de Avis iria para o beleléu.

A quem chega pela primeira vez no lugar e não entende as broncas de Dona Luzia, Jeremias se dá ao trabalho de bancar o relações públicas e cuida da imagem e reputação do estabelecimento:

– Digamos que o casal de proprietários está numa fase de tucanos versus petistas, mas experimenta a coxinha de catupiry que é o que há… Logo logo eles se acalmam.

Aos mais chegados, Jeremias dá uma de psicólogo e alardeia o resumo da ópera:

– Ela faz do pobre coitado o seu contraponto com o mundo. No fundo, no fundo, a Dona Luzia, que é uma balzaca ainda no prumo, não está satisfeita com o dia a dia que anda vivendo entre o forno, o fogão, a pia, a farinha e os salgadinhos. Tá mal com ela mesma, dá para entender?

Há quem entenda. Outros, como este humilde escriba, continuam boiando. De real mesmo, é que, feito o diagnóstico, o Jeremias ajeitou o colarinho da camisa Dudalina e resolveu intervir.

– No estilo, meu caro, no estilo…

Ele bolou a seguinte estratégia que lhes conto amanhã, se o dito-cujo não roer a corda.

Aguardem!

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