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Momentos

Não era ela…

Mas, tinha o porte, os traços, as feições – e até o jeito de fumar que o faziam lembrar a moça que um dia foi a razão dos seus ais e uis. Do seu enredo, da evolução e do samba que atravessou, sem pedir licença, nem passagem.

Sentiu (in)certo desconforto na alma – era o que faltava para uma manhã de quarta-feira de cinzas ficar redonda, perfeita.

“O tanto que amei aquela mulher”, disse para si mesmo, sem se dar conta do que dizia.

Ele e a desconhecida dividiam o espaço do ponto de ônibus com outras pessoas que, a partir daquele exato instante, deixaram de existir. Embora tentasse que tentasse disfarçar não conseguiu tirar os olhos daquela figura que ele parecia conhecer de outros carnavais.

Sensação esquisita. Percebeu-se frágil, inseguro, melancólico; vazio e obsoleto como um carro alegórico após o desfile, largado em um canto qualquer da Dispersão.

Logo ele que acordara tão empolgado nesta manhã – detesta Carnaval e seus larilalás. Queria chegar logo ao trabalho, tocar a reunião, fazer e acontecer. Finalmente o ano iria começar.

Agora, queria mais que o tempo congelasse. Como se fosse um batuqueiro da Mangueira em meio à “paradona”, pudesse ficar assim imóvel, enigmático, diante dela e do sonho de retomar a canção, retomar a bela história de um amor…

Foi justamente neste precioso momento que o ônibus chegou – e parou ruidoso, arfante, diante da pequena multidão.

Razão e coração. Deu coração.

Preferiu ficar e saborear, alguns minutos que fossem, a companhia da desconhecida e das próprias lembranças.

“A vida é feita de momentos”, filosofou.

Indiferente, não prestou atenção sequer para o rodamoinho de pessoas ser engolido pelos vãos das portas automáticas do coletivo. Que partiu em seguida.

Só então olhou ao redor e viu que ela não estava mais ali.

Partira sem lhe dar satisfação, sem que ele se desse conta; exatamente como fez aquela danadinha com se parecia.

Lembrou os versos de Camões:

— A grande dor das coisas que passaram.

Mais tarde, já na repartição – e ainda curtindo a ressaca de um Carnaval que não brincou –, lhe afligia a dúvida cruel: os versos de Camões lhe vieram a mente por causa da paixão antiga, da moça que o enfeitiçara ou pelos 50 minutos que ficou à espera de que outro ônibus passasse?

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