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O avesso do avesso do avesso

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Foto: Arquivo Pessoal

Zezim é um amigo querido, dos tempos da velha redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor.

Espero que esteja bem!

Faz uns 20 anos que não o vejo, nem sei dele.

Tinha tiradas sensacionais, divertidíssimas, que flertava com o total e politicamente incorreto.

Eram tempos outros, entendam.

Certa vez, chegou um novo estagiário no jornal.

O Zezim, bem ao seu gosto e feitio, saiu lá do departamento em que trabalhava e veio conhecer o figura.

Olhou, olhou – e foi embora.

Entrou mudo, sequer o notamos na redação, e saiu calado.

Mais tarde, fim de expediente, o Zezim veio ao meu encontro para fazer a seguinte observação:

– Rudi, avisa o rapaz: se amanhã ele pode vir do lado certo porque hoje, vamos combinar, o bofe veio do avesso. Só pode, né?

Realmente, o estagiário passava longe de ser, digamos, um Cauã Reymond.

Quinta-feira, dia que a redação ficava num só agito em função do ‘fechamento’ do jornal que era semanal e circulava na sexta.

Old times…

Por linhas tortas e avessas, a saudade dos amigos daqueles idos tempos me faz lembrar uma divertida crônica de Rubem Braga.

Foi escrita em abril de 1951 e chama-se “ODABEB”

Vou tentar adaptá-la aqui.

Conta nosso melhor cronista que, no tempo em que os animais falavam, um bêbado seguia pela rua e um enorme jacaré ia atrás dele. Toda vez que o moçoilo entrava num boteco o jacaré gritava:

“Bêbado!”

O homem saía, o jacaré se arrastava na sua trilha.

Bastava entrar em outro bar e o animal, implacável:

“Bêbado!”

E assim foram de bar em bar. Até que o bebum perdeu a paciência, se atracou com o bicho, agarra daqui, esgana dali – e, num dado momento, o homem virou o jacaré do avesso e o abandou num canto da calçada.

Vitorioso, o nosso herói foi bebemorar que era um fortão, mas não era de ferro.

Entrou no primeiro bar que apareceu.

Assim que pediu “aquela de sempre”, ouvi um voz esganiçada, ainda que abafada, gritar:

“Odabeb!”

Pois então, meus caros – e a partir daqui é por minha conta: quase 70 anos depois, a crônica do grande Rubem Braga parece adequar-se perfeitamente ao Brasil de hoje, onde as coisas cismaram de andar de frente pra trás ou mesmo como ficou o alucinante jacaré, do avesso.

O dólar caminha célere para 5 reais, está bom para você?

O ministro da Economia acha natural, ameaça com o famigerado AI-5 e idealiza uma reforma previdenciária nos moldes que arrasou com o povo chileno.

Tem juiz de instância inferior que, no deboche, afronta decisões do Supremo, outra que dá sentença na base do recorta-e-cola,  o orçamento da Educação anda em frangalhos, a Amazônia foi quase dizimada pelo fogo bandido e o crescimento social, ó!, ladeira abaixo… E vamos que vamos!

Ah, tem inclusive técnico português ensinando brasileiro a jogar futebol.

É mole ou quer que mexe?

Sei, não, meus camaradas…

Vivemos o avesso do avesso do avesso.

A única pergunta que me ocorre nesta hora é a seguinte:

Odabeb, meu caro, se é que ainda está por aí, por favor, me empreste o falante jacaré?

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