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O boleiro

Das poucas coisas de que me orgulho na vida é (ou melhor, foi) minha trajetória de futebolista amador pelos campos de várzea (quando ainda existiam à profusão) em São Paulo.

Não cheguei a ser assim um Milton Bigucci (empresário, construtor e boleiro que, neste ano, lançou o livro “7 Décadas de Futebol”, com o registro de suas andanças pelo Planeta Bola, e na ativa ainda hoje), mas dei minhas tacadinhas que, hoje, me fazem uma falta danada. Especialmente nas manhãs de domingo quando essas lembranças me são mais latentes e vivas. Nesse horário em outros e longínquos tempos, estava esbaforido a correr atrás da redonda, fosse onde fosse, o campo de terra.

A tosca demarcação da cal traçava os limites do meu mundo, dos meus sonhos.

Quando lancei meu primeiro livro “Às Margens Plácidas do Ipiranga”, escrevi sobre esse encantamento na minha apresentação como autor. Mais tarde transformei esse texto na autobiografia que consta do site.

Quem quiser pode conferir…

II.

Comecei cedo na várzea. Devia ter onze para doze anos. Jogava pelo chamado ”infanto-juvenil” do Santos Futebol Clube do Cambuci, comandado pelo João Bicudo, uma espécie de técnico e dono do time de moleques.

Naqueles idos, era uma odisseia chegar à casa do adversário.

Tínhamos que estar às seis e quinze, seis e meia, na esquina da rua Almeida da Torres. A partida começava pouco depois da sete e terminava
impreterivelmente às nove horas, quando dávamos a vez para o “Esporte” dos times ocupar o campo.

Dois esclarecimentos, desconfio, se fazem necessários:

1 – o trajeto era feito na carroceria de um possante caminhão . A única vez que fomos de ônibus foi numa viagem à cidade de São Roque, considerada então a Terra do Vinho.

(Não preciso dizer, mas digo: alguns dos nossos beberam mais do que jogaram.)

2 – “Esporte” era a categoria adulta dos clubes varzeanos. Nosso jogo terminava assim que eles entravam em campo. Não havia chororô, nem jurumelas.

III.

Vida afora, joguei em vários times: na seleção do Colégio Marista Nossa Senhora da Glória (aqui, era depois da missa das oito), no Estrela dos Boêmios (em um dos campos da várzea da rua Independência, no Huracan da Várzea do Glicério, no Brasília da Vila Carioca, no Catado da avenida Ricardo Jafet, no Sucatão do Clube Atlético Ypiranga (Bigucci era o camisa 10, capitão, técnico e patrocinador) e em outros tantos “bala-mistura” onde aparecesse a chance de entrar em um arremedo de campo que fosse e se imaginar na final de uma Copa do Mundo.

O tamanho da fissura era tanta que o par de chuteiras estava sempre no porta-malas do carro, devidamente acompanhado por calções e meiões, faixas e tornozeleiras, para qualquer eventualidade.

Se alguém precisasse de um quarto-zagueiro voluntarioso, era só chamar.

Também podia jogar de lateral, de volante, de meia… Até de goleiro eu fui improvisado em um campeonato entre veteranos do União Mútua da Vila Carioca.

IV.

Indizível a magia de uma partida de futebol.

Eu ia a todas.

Mesmo que não chamassem, eu lá estava.

Vai que surgisse uma boquinha…

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