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O que o tempo leva… (42)

UMA NOVELA BLOGUEIRA – (Foto: Reprodução)

 

FOI EXATAMENTE naquele dia, o começo do fim. O encanto havia se quebrado. O amor, por certo, persistiria. Sabe-se lá por quanto tempo…

 

– O doutor permite o pitaco?

– Claro.

– Desculpe falar. Foi mal. Foi mal na fala. Um balde de água fria, doutor. Essa coisa de ser mãe tá dentro delas, doutor. Vixi. Que vespeiro!

– Tenho plena convicção, amigo. Não dava pra ser diferente. Aliás, o pacote todo dos tais relacionamentos ditos mais estáveis sempre me assustou.

– Cada um, cada um, né, doutor? A gente pede a mão da moça e leva todo o resto. A parte boa que é a moça inteira. Vem de contrapeso o sogro, a sogra, os cunhados, os tios da moça que agora passam a ser seus também. Não vivi isso, não. Não posso falar, mas é o que ouço por aí…

– Já vi que esse Fusca por vezes funciona como um consultório sentimental.

Não disse a ele, mas pensei cá comigo.

Foi exatamente naquele dia, naquela resposta, o começo do fim.

Numa noite de terça-feira, com a lua fora de curso, aquele prazo dos índios mais do que vencido, o papo não rolou como de hábito depois do amor. Ficamos enroscados por algum tempo. Não percebi que chorava às escondidas com o rosto apoiado ao meu peito.

Só me toquei das lágrimas quando me encarou. Olhos vermelhos:

– Precisamos conversar, disse.

O encanto havia se quebrado. O amor, por certo, resistiria. Sabe-se lá por quanto tempo.

Sempre soube da onipotência do efêmero. Um dia se chega, n’outro vai se embora.

Não lembro de como se tocou a conversa. Se é que houve conversa.

Sei que, quando a deixei, a sensação era de que já não éramos mais os mesmos. Não habitávamos mais o tal Planeta Sonho.

Não havia mais cumplicidade.

Continuamos a nos ver. Mais esporádica e friamente.

Estávamos em outra dimensão. Ou seja, não éramos mais plenos.

Começaram as desculpas que, bem sabíamos, protelavam o desenlace.

Na verdade,  estávamos a cada dia mais distantes um do outro.

Eu estava atarantado, confuso. Queria e não queria.

Numa dessas, foi quando entrei pela primeira vez naquele apartamento. Tive o impulso de comprá-lo e lhe fazer uma surpresa.

Comentei com ela a possibilidade. Na verdade, era uma vã tentativa de reconquistá-la.

Ela se empolgou, rimos muito. Fomos felizes por instantes.

O vinho ajudou nos planos de um futuro que não viveríamos.

Uma noite inesquecível.

Sabíamos sem saber que era o adeus.

Ainda tentei novos encontros.

Eu a percebia reticente ao telefone, uma estratégia de quem me parecia decidida pelo fim.

Forcei um novo encontro.

Não veio.

Dias depois, viajou para almejada bolsa de  estudos em Londres.

Entendi que as verdades, muitas vezes, se impõem. Não precisam ser ditas.

O homem é bobo nessas horas. Insisti. Perguntei quando voltaria.

– Não sei, disse.

Pedinchei:

– E nós?

– Um dia, quem sabe?

 

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