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Roberto Dias

Aqui na Terra vão jogando futebol…

Mas, a Seleção de Todos os Tempos sofreu ontem outro sério desfalque.

Não sei se vocês sabem. Todos os que amam o futebol tem uma Seleção de Todos os Tempos — popularmente conhecida como seleção dos sonhos. É impossível gostar do esporte sem cair em devaneios e projeções do time perfeito a reunir atletas de todos os estilos, de todas as eras.

Tais devaneios começam logo cedo.

Assim que o menino dá o primeiro chute em uma bola e se imagina o centro do mundo, o rei dos estádios. Em outras palavras, o próprio boleiro em ação.

Aos da minha geração:

— Quem aí nunca se imaginou um Pelé, um Garrincha, um Gilmar?

Chico Buarque, ainda hoje quando joga futebol com os amigos, diz ser Pagão, centro-avante do Santos nos anos 50 e início dos 60.

Mas, isto é outra história. Um dia, eu conto…

II.

Portanto, é fácil supor que legítima “Seleção dos Sonhos” vem lá dos cafundós livres da infância – e por isso mesmo é absolutamente pessoal. Fundamental: obedece a um único critério, o encantamento.

No meu caso, o escrete é formado por craques que convenceram o menino do Cambuci a fazer do futebol razão e vida. Andei pra lá, andei pra cá. Mas, querem saber: desconfio que seja assim até hoje.

Àquelas priscas eras, não media sacrifícios ou tempo ruim para vê-los em ação. No Pacaembu (quase sempre), Parque Antártica, Canindé, rua Javari e até mesmo campos de várzea…

Via os jogos com a lente do sonhar.

III.

Não importava qual o time jogaria. Ia ver os deuses da bola. Aprender a magia do drible, a sutileza da antecipação, o desconcerto do chute a gol, o delírio espontâneo da massa desorganizada, onde os torcedores se confraternizavam, mesmo de times dioferentes.

Eu ficava, ali, junto ao alambrado, estático diante da surpresa do minuto seguinte.

A TV não era ainda cúmplice – e algoz – do chamado ‘esporte-rei’. Um ou outro jogo do campeonato paulista era transmitido nas tardes de domingo. Mesmo com o advento do vídeo-tape, o espaço do futebol na TV era mingüado.

Ou seja, o futebol era jogado, assistido in loco e reinventado em nosso delicioso delirar.

Daí o encantamento ser imprescindível…

IV.

Um dia talvez descreva aqui, em detalhes e porquês, os titulares e reservas do meu dream-team. Hoje, porém, quero reverenciar a memória de Roberto Dias que morreu ontem, em São Paulo.

Dias tinha 64 anos e foi, ao lado do goleiro argentino José Poy, o grande nome do São Paulo Futebol Clube nas décadas de 60 e 70.

V.

Como vocês sabem, sou palmeirense. Mas, era extraordinário ver Roberto Dias jogar. Toque refinado, bom cobrador de falta, um jogador inteligente. Começou como médio-volante – formou o meio de campo da seleção olímpica ao lado de Gerson, em 1960. Depois passou a atuar como quarto-zagueiro, esbanjando um talento raro para os jogadores da posição.

Pelé o considerou seu melhor marcador.

Precisa dizer mais?

VI.

Rigorosamente leal. Não dava pontapés. Antecipava-se com precisão, pois conhecia os tais misteriosos e imprecisos atalhos do campo. Mesmo de pouca estatura e físico franzino, sabia se impor na zaga pelo fino trato que dava à redonda.

O menino do Cambuci queria jogar igual a ele.

Ser o anjo da guarda da defesa…

(Mas, o garoto adorava dar ‘carrinhos’ e chutões, trangressões que não cabiam a divindades como Roberto Dias.)

VII.

Um episódio foi determinante, creio, na carreira – e talvez na própria vida do craque. Quem me contou foi um velho jornalista que o encontrou na casa da noiva em São Paulo, onde o atleta se refugiou logo após o corte da seleção brasileira de 1966, às vésperas da Copa da Inglaterra.

— Ele estava muito triste, arrasado. Não sei se conseguiu se recuperar da frustração de não jogar uma Copa.

Dias formava dupla de área no São Paulo com Jurandir, e vivia seu melhor momento. Como se dizia à época, “carregava o time nas costas”.

VIII.

Não havia qualquer dúvida: era o melhor do Brasil.

O Brasil era bicampeão do mundo. A euforia do tri era descomonunal. A então CBD transformou em um grande festival a preparação da seleção brasileira. Foram convocados 44 jogadores – 4 para cada posição – para um período de treinos no circuito das águas em Minas, em Serra Negra (interior de São Paulo) e finalmente no Rio de Janeiro.

Durante esses coletivos, iriam acontecendo os cortes.

IX.

O Brasil perdeu a Copa de 66. Foram erros demais…

Um deles o corte de Roberto Dias, logo entre as primeiras levas de atletas.

O menino do Cambuci, que nada sabia de vilanias, continuou sem entender como algum time do Planeta Bola poderia dispensar o talento de um jogador daqueles. Titular absoluto da definitiva e fantástica da minha imbatível Seleção de Todos os Tempos ao lado de Castilho, Djalma Santos, Djalma Dias, Altair (o melhor marcador de Garrincha), Ademir da Guia, Didi, Garrincha (Julinho), Mazzola, Pelé e Canhoteiro.

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