Sign up with your email address to be the first to know about new products, VIP offers, blog features & more.

A tal globalização e o Tio do Pavê

Foto: Manifestação nas ruas de Munique, Alemanha./Arquivo/Blog do RCM

Vamos chamá-lo de Olegário…

Ou seria Idário ou simplesmente Mário. Amaro, talvez.

Não lembro.

Lembro, sim, que o citado cidadão era o mais falante do grupo que se formou, digamos, involuntariamente para um prosaico City Tour pela agradável cidade de Munique, na Baviera alemã, naquele antigo ano em que lá estive.

O jovem senhor era tão desabrido e tagarela que bastou uma parada, na noite anterior, para conhecermos “a maior cervejaria do mundo” – Hofbräuhaus am Platzl , com capacidade para cerca de 3 mil pessoas sentadas – para o Olegário ou Idário ou Mário (Amaro, talvez) ganhar o singelo apelido de “o Tio do Pavê”.

“Nós viemos aqui para beber ou para conversar?”

Ele interrompeu toscamente o guia que nos explicava, em trôpego portunhol, a história das cervejarias alemãs famosas, responsáveis pelo sucesso mundial da Orktoberfest.

“Fundada em 1589, esta é a cervejaria mais famosa do mundo, muito turística, animada com música ao vivo e localizada no centro…”

“Legal, legal… Mas, nós viemos aqui para beber ou para conversar?”

Mereceu a alcunha, ou não?

Eu sei, e até entendo.

A espontaneidade nos é coisa natural quando viajamos e nos sentimos à vontade.

Mas, há um certo limite, não?

Um tantinho mais além da tênue linha do oportuno, do respeitoso, e eu me ponho em sinal de alerta.

Foi o caso.

Alerta que, diga-se, soou forte quando não sei quem da organização do passeio ou da casa avisaram a chegada de um grupo de ‘brasilianos’ aos músicos alemães que animavam a noite. Bastou uns minutos e ouvimos a voz do vocalista tedesco a entoar o nosso manjado “Mas Que Nada” num idioma que imagino ser intergaláctico.

Entendia-se bulhufas. Só se distinguia o refrão “oba-oba-obáaa”.

Aplaudi a iniciativa e fiquei matutando comigo mesmo se houve alguma vez em que viajei para outros países que não tenha ouvido a canção do carioca Jorge Ben Jor em uma das mil e uma leituras que recebeu mundo afora, seja em bares, restaurantes, lojas e mesmo na esforçada interpretação de um cantante gringo como ali aconteceu.

Vivemos a tal globalização, disse o Tio do Pavê e eu apoiei a observação.

Um momento único de transição que a gente verdadeiramente não sabe bem para onde vai – e se vai?

Enquanto elucubrava minhas tolas reflexões, vejo a figura de canecão em punho, de pé a entrecortar o samba-polca que ouvíamos, com sonoros berros de…

“Toca Raul!”

“Maluco-beleza!”

“Toca Raul!”

Que cena, amigos…

Que cena constrangedora!

Na manhã seguinte, continuamos o City Tour.

Nas ruas da metrópole bávara, mesmo na primavera gelada (chegou a nevar horas antes), tropeçamos com manifestantes que saíram às ruas centrais e circulavam a praça central.

Tratava-se de uma mobilização genericamente pela paz, mas agregava outras causas – a legitimação dos direitos das minorias, a abertura das fronteiras para os refugiados, o risco iminente da bomba nuclear – que mal consigo distinguir nos cartazes escritos em inglês e alemão.

“É a globalização, amigo.”

Bem próximo a mim, Olegário ou Idário ou Mário (Amaro, talvez) diz e acrescenta com ares professorais:

“Vale para a Alemanha. Vale para o nosso Brasil. Vale para o mundo todo!”.

Sorriso troncho em muitos de nós.

Minha tradução para o silêncio cúmplice que se fez foi a seguinte: temos poucos dias de desfrute por aqui. Logo voltaremos para o Brasil.

A vida real nos espera, penso, mas não ouso dizer.

Se um Tiozão incomoda muita gente, dois tiozões reclamudos incomodam muito mais.

Viajar é sempre um drible de corpo que damos em nós mesmos.

Mas, ponderemos amigos e futuros leitores, Munique é uma cidade das mais agradáveis. Até com a tal manifestação. Além do que ainda estamos por visitar os aclamados arredores com castelos de contos de fadas, outras tantas cervejarias e os tais cenários de abundante verde… Ah, e ainda tem essa gente que anda pra lá e pra cá e, à primeira vista, se mostra despreocupada e feliz. Como se, por aqui, problemas não os há.

Tudo isso nos envolve e…

Bem, melhor esquecer os problemas do mundo (ao menos, por esses dias) e saborear o tempo que nos resta por aqui.

Penso, mas quem disse que o apalermado Olegário ou Idário ou Mário (Amaro,talvez) pensa igual?

“Vale pro nosso Brasil, certo? Do jeito que está não pode ficar. Certo?”

Diz e olha cobrando a minha resposta.

“Certo?”

– Certo!

Não vou além disso, porém.

Quase lhe respondo que a única certeza que tive naquela hora foi a óbvia e ululante:

Escolher melhor as companhias para o passeio de logo mais ao Castelo de Neuschwanstein.

(Se é que me entendem?)

TRILHA SONORA

De um assunto pr’outro.

Antecipo meu Feliz Dia dos Pais a todos e tamanhos!

E explico:

Amanhã, domigo, o papai aqui folga.

Volto na segunda.

Deixo-lhes com uma canção a gosto do saudoso Velho Aldo, meu pai, apaixonado por boleros.

Ainda nenhum comentário.

O que você acha?

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verified by ExactMetrics