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Amanhece na cidade

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Foto: Jô Rabelo

Vasculhei o que pude e o que não pude os livros de Fernando Sabino assim que voltei da semestral avaliação médica a qual tenho justo direito por força (ou ausência de força) dos longos anos vividos – e, diria eu sem falsa modéstia – atropeladamente bem-vividos.

Explico (eu que não sou um sambista genuíno) os atropelos que me são (ou foram) naturais com aquele verso famoso do igualmente famoso Zeca Pagodinho:

“Deixa a vida me levar… Vida leva eu”.

Em assim sendo – expressão que aprendi com meu saudoso cunhado Waltinho – acordei hoje, quase ontem, por volta das 5 da matina para a primeira consulta do dia no bendito hospital, longe pra dedéu de casa, do outro lado metrópole paulistana. Vinte e tantos quilômetros, por aí.

Há tempos não faço tamanha proeza. Acordar e o céu ainda estar escuro, escuro…

Ok. Dou plena razão ao amigo que fizer a inevitável ponderação.

Coisa de quem não é mais o que um dia foi. Sem agenda. Sem compromisso com os prazos e o relógio do ponto. Instâncias que ficaram no passado que passou… (O lufa-lufa das aulas matutinas. Os prazos de fechamento da edição nas redações dos jornais onde andei. E outros corres que me eram habituais e cotidianos.)

Não clamo, nem sequer reclamo.

Faço a constatação – e lhes dou o mote de toda essa prosa solta:

A cidade me pareceu outra. Idem, as gentes, os carros de faróis ainda acesos, o movimento do novo dia enquanto a linha do horizonte lampejava os primeiros tons do clarear.

E é aqui que eu volto ao escritor Fernando Sabino que citei no primeiro parágrafo.

Lembrei uma crônica antiga das milhares que Sabino escreveu. O texto discorria sobre um inveterado boêmio, senhor de sólidos hábitos noturnos, bom vivant e frequentador dos bares e boates de então… Era essa a vida que levava – e assim imaginava ele, o boêmio, era a vida real para todos os seres viventes.

Por algum motivo que não lembro qual, nosso distinto personagem demorou-se além das horas na gandaia – e, por descuido, aconteceu de ver a cidade amanhecer. Houve um estranhamento generalizado. Era assim, pois, que viviam os homens enquanto ele dormia o sono dos cultores de Hedones, a deusa grega dos prazeres.

Não sou boêmio.

Longe de mim imaginar-me um Fernando Sabino das letras.

Só fui saber quem era Hedones, filha de Eros (amor) com Psiquê (alma) já rapazola nas aulas de Literatura Comparada.

Mesmo assim, vivi hoje meus momentos de estranhamentos, como o personagem da crônica.

A bendita crônica que procurei nos livros e tanto gostaria de reler.

Apelei até para a onipresente IA.

Apelei, em vão.

TRILHA SONORA

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