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Azedinho doce de pura saudade

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Foto: Clamic (in memoriam)/Arquivo Pessoal (*)

Onde foi que paramos em nossa conversa de ontem?

Ah, sim!

Pronto para lhe contar minhas memórias a partir de um insólito reencontro.

Se quiserem saber a história completa, recomendo que leiam os posts/crônicas anteriores.

As coisiquinhas que escrevo…

Crônicas ao sabor de Gini

Ok?

Vamos ao terceiro capítulo.

(Prometo: é o último, sem mais embromação.)

Dia desses, em passeio obrigação pelas prateleiras do supermercado perto de casa, eis que encontro um ilustre conhecido, todo oferecido em sua nova_velha roupagem.

Explico meu espanto antes que os eventuais leitores desconfiem (se é que já não têm certeza) de que ando em delírio de abstinência.

Tranquilizem-se, caros amigos.

Não sou um halterocopista de ocasião.

Nunca fui. Nem socialmente bebo. Digo aos meus parças – que gostam de cerveja e/ou um bom vinho e/ou outros destilados mais – que me perdoem se não os acompanho nas épicas empreitadas etílicas. Tenho diria um gosto infantil para a beberagem. Prefiro Coca-Cola, Guaraná, Soda Limonada… Eventualmente um ou outro suco de fruta, mas nada que contenha dosagem alcoólica que, de resto, experimentei, e me derruba em questão de minutos.

Gostava de estar com eles nas homéricas noites de boemia naqueles idos das velhas redações, mas, decididamente declaro: não sou do babado.

Invariavelmente era o único sóbrio, responsável por encaminhar os amigos bebaços para as devidas residências ao fim da madrugada, amanhecer de um novo dia.

Old times.

Assim era, meus caros.

Na toada que lhes descrevi acima, veja o que se deu na primeira vez que fui acompanhar o ‘fechamento pra valer’ de um jornal no calor e ‘corre’ de uma Oficina de Impressão.

Idos de 1974. Lá se vão 52 anos…

O implacável fluir do tempo. Inexorável.

Voltemos a estafante rotina daqueles dias.

Encaminhadas as páginas já diagramadas pela Redação para a Impressão, a feitura de um jornal era composta de diversas etapas, entranhadas umas às outras: digitação dos textos, verificação dos erros na Revisão, montagem das páginas(uma a uma) no mar de pranchetas do past-up, secretaria gráfica com implacável supervisão, volta para ao Setor de Revisão, finalização dos detalhes (o bate-final), encaminhamento das ditas páginas à fotomecânica até a transformação das mesmas em fotolitos, retocados a cuidadosas pinceladas e, por fim e enfim, a transmutação em placas para a rodagem na voraz e mastodôntica impressora.

Diria hoje que era um desafio, com contornos de jornada épica.

Chegávamos à Gráfica por volta das 14 ou 15 horas – e não tínhamos hora para sair.

Então…

Naquela tarde/noite/madrugada que se perdeu no mais antigo dos anos, o estreante aqui estava, digamos, algo entusiasmado. Adentrara curioso em um mundo novo, que tinha lá suas agruras, que era cansativo, mas que se apresentava também envolto em aspectos lúdicos e misteriosos.

Para aguentar o tranco e o barrranco, a moçada do jornal (que supervisionava todo o artesanato) fazia paradas pontuais quando tiravam lá seus minutos de relaxe na padaria ao lado da Oficina.

Era aquele bate e volta, digamos, restaurador.

Eu era assim, como direi, o assessor do AC, nosso chefe de reportagem e responsável pela coisa toda. O homem acompanhava simultaneamente as diversas etapas do processo. Um olho no gato, outro no leite (bem, não era exatamente leite o que o movia, mas sigamos).

Atento a todos os detalhes.

E eu, ali, querendo aprender como é que a banda toca.

De tempos em tempos, vinha a ordem:

“A pausa do guerreiro. Vamos pra padoca” – ele dizia, e o Degas aqui achava justo e necessário.

E lá íamos…

No fim da noite, edição ainda quente nas mãos, missão cumprida e comprida.

No fim da noite, madrugadaça, contabilizei:

O AC tomou nove doses de conhaque Fundador (nunca esqueci).

E euzinho, o noviço, o estagiário, o songa da vez, derrubei oito… 8 garrafinhas de Gini.

Não consegui acompanhar o AC na saideira.

Daí todas essas crônicas a reverenciar azedinho e doce de pura saudade embalada na visão de algumas garrafinhas esverdeadas do refrigerante Gini.

Valeu?

Quem gostou pode aplaudir e comentar.

TRILHA SONORA

“Saudade, o som do tempo que ressoa”

(*) Nota do Autor:

O autor da foto, Cláudio Michelli, vulgo Clamic, o faz-tudo da Velha Redação naqueles idos e havidos anos. De fato e por execelência, um extraordinário repórter-fotográfico que nunca nos deixou sem a melhor ilustração para nossos textos. Minha reverência e imensa saudade, amigo.

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