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A Cor da Vida (16)

Foto: Arquivo Pessoal

16 – A LINHA DO HORIZONTE

Noite dessas fui buscar água com gás para a minha mãe na copa, e vi o Enzo e o Sr. Ambrósio conversando e tomando vinho.

Não falavam de mulher não. Nem de futebol.

Estavam sérios.

O assunto era a pandemia – e a desgraceira que está causando no mundo todo.

Sr. Ambrósio quer fechar a pousada.

Quer ficar sozinho, acho.

Disse ao Enzo que ele pode ficar, pois é de casa.

Mas, os outros hóspedes, não sei não.

É muita responsabilidade, disse.

Muito gasto também, acrescentou.

*

Não falei nada para a minha mãe.

Não vejo ela assim murcha, igual balão sem tocha, desde que se separou do meu pai.

Também não sei se o Enzo ficará por aqui.

Estou um bocadinho preocupado.

Estranho. Não sinto vontade de chorar.

Só fico olhando as pessoas… e pensando:

O que tiver que ser será, acho que foi isso que o Enzo disse logo no começo da coisa.

Quantos dias ainda ficaremos por aqui?

Uns quatro ou cinco? No máximo, uma semana…

Deixa para lá, vocês sabem a minha diferença com números.

*

Sei que essas férias foram mais longas, mas, querem saber, passaram de forma rápida, e acho que não tenho do que reclamar.

A gente ia para a praia pelas nove, dez horas da manhã e lá as crianças brincavam e os adultos ficavam sentados naquelas cadeirinhas chatas de carregar.

Um dia prendi o dedo numa delas. Nem vou falar o que chorei. Vocês me conhecem já.

Enzo logo se invocava de ficar na paradeira e saía para andar sozinho, sempre sozinho.

Em uns dias, pensei em ir também, mas era hora boa para brincar com a prancha que também ganhei no Natal, e desistia para não perder a próxima onda.

Não sei, acho mesmo que ele preferia assim.

Gosta de caminhar sozinho.

*

Depois veio a tal da pandemia…

As notícias. As pessoas assustadas. O medo presente em cada olhar, em cada palavra.

Ficamos isolados nesse paraíso.

Cada família almoça num horário. Não houve mais  confraternização, jogos, essas coisas.

Cada um por si.

Parece que estamos à espera de algo. Ruim ou bom, como saber?

Vacina só para o ano que vem – ouvi o que minha mãe disse para o Radamés:

– Você se cuida, pelo amor de Deus. Aqui, estamos bem. Saudade. Beijos. Te amo.

Minha mãe falou tudo isso com voz de choro.

Quase que eu a imito – e digo:

– Para com isso, D_e_n_i_s_e!

*

Sabem aquela frase que o Enzo escreveu na areia e não terminou?

Parecia prova de Língua Portuguesa.

(Mesmo argentino, minhas melhores notas na escola são as das aulas de português? Pois é, legal, né?).

Complete a frase:

Felicidade, teu nome é…

Vai saber?

Na palavra que falta, mora o detalhe, o mistério que hoje todos precisamos descobrir.

A felicidade ao alcance dos olhos, e além. Por enquanto, a gente ainda não consegue ver nada.

Só a linha do horizonte. Isso quando há uma linha no horizonte!

Vivemos um tempo nublado.

Então, todos estamos tristes.

Mas, vai passar, acredito!

Por enquanto, é só um espantar-se diferente com a vida.

Continua amanhã…

 

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