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A Cor da Vida (8)

Foto: Arquivo Pessoal

8 – AINDA O VESTIDO AZUL

Gosto de conversar com o Enzo porque ele sempre me entende.

Dizem que é típico de escritor, né?

Como ele disse, qualquer vida vale uma boa história. Nenhuma história, por melhor que seja, é tão plena e vale uma vida, qualquer que seja a vida.

Não entendi, para variar.

Mas, achei bonito. Acho que ele estava me dando uma força.

Veja bem, disse:

– Não sou fã de time nenhum. Futebol mexe com uns sentimentos muitos primitivos dentro de mim. Para escrever, preciso estar sereno, em paz. Aliás, a serenidade e a paz são elementos fundamentais aos justos e aos que primam pela sensatez. Além do que não vejo graça nenhuma naquele monte de peludos correndo atrás de uma bola. Mas pense comigo, Mingo: o que o arco-íris tem a ver com o futebol? Nada. Ali, naquela maravilha da natureza, cabem todas as cores e todas as nuances de tons e sobretons. Se a Denise, sua mãe, escolheu o Radamés por isso, porque ele lhe inspira o arco-iris, a paz e a serenidade, ela fez muito bem. Assim pode usar em paz o vestido azul que a deixa mais bonita do que já é sem que o marido ou quem quer que seja fique triste ou perca a serenidade.  Além do que, azul é a cor do céu, do mar e do olhar da paulista que se foi, lembra?

– Mulheres, mulheres… – concluiu tristinho, tristinho.

*

Enzo, quando começa a falar, não para.

E tem mais, acrescentou:

– Você já não ouviu dizer que homem troca de mulher, mas não troca de time? Então, foi o que aconteceu com seu pai. Desconfio também que mulher, quando gosta de um vestido, troca de marido, mas não deixa de usar um belo vestido justo. Não tente entender os adultos, somos confusos e tolos por natureza. Mas, nos queira bem que é o que importa.

– Do que vocês estão falando?

Era o outro hóspede que acabava de chegar.

Enzo olhou para mim com jeito de quem faria uma molecagem – e respondeu:

– De mulher e de futebol. Da vida real e da que imaginamos.  Que assunto interessa mais a dois homens distintos como eu e o Mingo?

– Ufa! Pensei que estivessem falando dos números de mortos de ontem para hoje provocadas pelo coronavírus. Um horror, uma tragédia. Você sabia que…

O homem nem terminou a frase, Enzo cortou logo:

– Não sei,e nem eu, menos ainda o Mingo, estamos a fim de saber. Estamos em meio a altas reflexões. Se é que você me entende?

*

Não sei se o outro hóspede entendeu. Sei que foi saindo de mansinho.

Enzo foi andar na praia.

Senti um certo incômodo entre os dois.

Não sei se tinha a ver com a moçoila, aquela que se foi.

Ou alguém falou coisa que não devia.

Sei que o santo dos dois não bagteu.

O rapaz foi em direção à cozinha balançando a cabeça negativamente.

Ouvi dizer que estavam atrasadas as provisões de alimentos e material de limpeza.

Queriam marcar uma reunião urgente com o Sr. Ambrósio, mas o Enzo não deixou o rapaz falar.

Ah, esse Enzo nunca se abala em suas convicções…

Continua amanhã…

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