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Naquela esquina famosa…

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8 de agosto de 1969. Lennon, Ringo, Paul e George posam para a capa do álbum Abbey Road/ A famosa foto foi feita por Iain Macmillan/Apple Corps

Soube que, dias atrás, Ringo e Paul refizeram o passo a passo que resultou na mais emblemática das capas de um álbum que a história da música popular já registrou.

Emocionados – e emocionante – os dois atravessaram a famosa esquina da Abbey Road, nome do inesquecível disco dos Beatles. Contristados, lamentaram as ausências de Lennon e George. Enquanto caminhavam, ressaltaram:

“Vamos fazer… Pelos rapazes também”.

Dizem que tratou-se de uma bem bolada ação publicitária para divugar a temporada internacional de shows que ambos farão em companhia de outros músicos.

Estavam emocionados…

Emocionaram-me.

A mim, e ao resto do mundo, imaginei.

Vou lhes dizer – e depois retomo o tema.

Para quem como eu – garoto suburbano – que nasceu logo após a Segunda Grande Guerra…

Ou seja, para os da minha geração, os Beatles representaram o marco de um novo tempo.

Verdade verdadeira.

Há um antes e um depois dos Beatles.

Os quatro cabeludos de Liverpool representaram, naquela segunda metade dos anos 60, a vez, a voz, o ser e o estar de uma juventude inquieta, ávida por mudar o mundo para melhor, para todos – e não pela tragédia das armas e do egoísmo e, sim, com versos e canções que enalteciam a liberdade de ser o que se é, o amor e a paz.

Eram – e sempre seriam, imaginei eu – reverenciados e conhecidos nos quatro cantos do planeta.

Como ele, a linda mensagem resistiria ao tempo e ao espaço.

Temo hoje que me enganei (o que, diga-se, não é lá grande novidade).

Ontem à tardinha, eu e o amigo Pouca Coisa fomos tomar um café no shopping perto de casa. Uma caminhada sob o sol nesses dias frios é sempre bem-vinda.

Sob o casaco, eu usava minha velha camiseta (um tanto puída pelo tempo, reconheço, mas estava com o casaco por cima, tudo bem) com a estampa da célebre foto dos quatro beatles atravessando a esquina famosa, foto que resultou na capa do disco Abbey Road (acho que eu já lhes disse isso, mas não custa repetir).

A nova funcionária que nos atendeu na cafeteria…

Pois é a jovem moça se fez simpática – e, enquanto anotava o pedido no tablet, olhou para a minha camiseta – e lascou a pergunta:

“Quem são esses caras? Que música eles cantam?”.

O Pouca Coisa que, por pouca coisa se irrita, desistiu do café.

Bateu em retirada.

Eu…

Não lembro o que disse à jovem.

Alguns grunhidos intelegíveis, tentando disfarçar, talvez.

Saí de cena também.

Encontro o indignado Pouca Coisa:

“Em que mundo ela vive?” – ele me diz.

Ia lhe responder que talvez – e muito provavelmente – a pergunta deveria ser endereçada a nós mesmos:

“Em que mundo vivemos?”.

Disfarcei, com gestos imprecisos.

Preservemos as boas amizades.

Por via das dúvidas, e para evitar novos contratempos na outra cafeteria, aleguei um súbito “golpe de vento” e resolvi abotoar o casaco por inteiro.

A CENA

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