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Eu, ajudante de agrimensor - Final
30/04/2007
 

XIII.

-- O Ďfiguraí, amanh„ quero vocÍ ŗs sete em frente ao port„o de embarque do aeroporto.

-- Legal. Nunca andei de avi„o.

-- N„o faz graÁa, meu chapa, vocÍ vai trabalhar comigo. ņs sete. Ok?

-- N„o vai dar. Meu primo sů passa ŗs oito.

-- As regras mudaram. ņs sete e fim de papo.

N„o respondi. Nem valeria a pena responder ŗquele metro e meio de pretens„o, apelidado de Bigode. Cabelo aparado ŗ Ďescovinhaí em uma ťpoca que sů militar usava o corte, bigode vasto e felpudo caindo sobre o lŠbio superior, cara quadrada Ė era o průprio, arremedo de feitor e sargent„o, de prancheta na m„o e calÁa de tergal verde-abacate.

A volta no Fusca do Alberto foi silenciosa. Afinal, ele era cķmplice na troca de ajudantes e se manteve afastado do diŠlogo que travei com o Bigode, o que se achava.

Na despedida, n„o houve Ďatť amanh„í. Um Ďobrigado e tchauí ficou de bom tamanho.

Nem lembro se o Alberto respondeu.

XIV.

Na manh„ seguinte, acordei antes de a m„e chamar. Me vesti com a melhor roupa e me despedi da m„e, sem tomar o cafť da manh„.

-- Aonde vai. VocÍ n„o vai esperar o Alberto?

Foi a vez da m„e ficar sem resposta. Antes das sete estava dentro do Űnibus. Mas sů cheguei ŗs oito e pedradrinha no Itaim Bibi. Fui direto ao escritůrio de engenharia. Apresentei-me ao departamento pessoal e pedi minhas contas. Dez dias de trabalho, deveria receber em torno de 250 reais (transformando em moeda de hoje). Na verdade, recebi um pouquinho a mais. Quase trezentos paus.

Fui direto para o centro de S„o Paulo. Fiquei zanzando por ali, com a grana espalhada em todos os bolsos. Caso algum punguista me Ďaliviasseí, ficaria apenas com um dťcimo do dinheiro. Era sů o que podia acontecer na S„o Paulo dos anos 60: vocÍ dar o azar de cruzar com um m„o leve, um batedor de carteira num coletivo ou num local de aglomeraÁ„o. Um encontr„o e zapt. VocÍ nem percebia que o cara havia furtado sua carteira...

Enfim...

Fiquei zanzando pela avenida Ipiranga. Olhei vitrines vagarosamente. Ameacei comprar uma camisa na alfaiataria Picadilly Ė mas, contive o impulso, alťm do era parecida com a que o Beto Rockfeller usava na novela. Antes das onze jŠ estava no boteco que fez aquele Ďpicadinhoí inesquecŪvel para, agora sim, um almoÁo como Ďmanda o figurinoí. ņs 13h15 fui o primeiro a comprar ingresso para a primeira sess„o do cine Windsor. N„o lembro o nome do filme, mas a atriz devia ser bem bonita Ė um dos critťrios que sempre adotei para ver bons filmes.

XV.

Cheguei em casa Ė e claro Ė a Dona Yolanda estava, digamos assim, em choque.

-- O que vocÍ aprontou. N„o me diga que...

Fui obrigado a dizer.

-- Fui demitido por vontade průpria.

-- Como assim?

Era uma longa histůria. Ela n„o entenderia alguns pontos de honra. Somos o que somos Ė e ponto. N„o poderia deixar aquele estropŪcio me transformar numa caricatura de mim mesmo. Era ele ou eu. O projeto da avenida Bandeirantes era muito pequeno para nůs dois. Uma pena, mas...

Troquei-me rŠpido e fui direto para a quadra de cimento do Bandeirantes, da Vila Carioca. A turma ia fazer um rach„o daqueles e eu precisava recuperar minha forma. Afinal, o Zť Luiz teria que ir ao casamento do irm„o no sŠbado -- e n„o poderia jogar. Ele entrou no meu lugar e n„o comprometeu. Eu n„o podia perder essa chance de recuperar minha condiÁ„o de quarto zagueiro titular do valoroso time do BrasŪlia, aquele que nunca venceu.

Nota do Autor Ė

Alguťm aŪ tem alguma dķvida que o trecho mais certinho da Bandeirantes ť justamente a reta que corta as imediaÁűes da avenida Miruna, onde tem o viaduto e o aeroporto. Pois ť. N„o levem a mal n„o, mas foi ali que atuou o degas aqui. N„o sei, n„o. Mas acho que os rapazes se perderam depois que os deixei. Sempre desconfiei que o tal do Bigode era uma farsa. E o Alberto n„o ficava muito atrŠs, n„o. Que me perdoe o tio Jķlio, tio da minha m„e que eu nunca conheci...

 
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