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CabeÁa pode, cabeÁa explode... Ou n„o?
31/08/2017
 

ďTudo ť uma quest„o de manter
A mente quieta
A espinha ereta
O coraÁ„o tranquiloĒ

II.

Dia desses Ė acho que foi segunda -, usei os versos do mantra yogue, que o cantor/compositor Walter Franco transformou em canÁ„o nos anos 80, para acalmar os ‚nimos do grupo de amigos, no whats, que teclava sem cessar sobre as afliÁűes do dia e da semana que mal se iniciara.

HorrŪvel.

Tosco.

Tenso.

Sinistro.

Eram essas as mais amenas das qualificaÁűes dos dissabores do cotidiano que compartilhŠvamos.

III.

A conversa/teclada se arrastava. Os minutos voavam.

Usei a artimanha da poesia cantada para acalmar os ‚nimos, confortar a alma e encaminhar o boa-noite a todos.

Bom dormir com o coraÁ„o e a mente em paz.

Todos concordaram:

CombatÍramos o bom combate...

IV.

Dia seguinte.

LŠ vem o questionamento de parte da turminha Ė os mais novos, principalmente.

Gostaram do recado, mas quem ť Walter Franco?

V.

OlaiŠ...

Que vacilo! Meu e da turma.

Meu porque imaginei estar falando de alguťm que todos conhecessem. Que ainda ďbombaĒ nas mŪdias.

Da turma, e de todos, pois todos deveriam conhecer a obra deste compositor de perfil raro na mķsica popular brasileira.

Paulistano, 72 anos, Walter Franco foi um dos expoentes da chamada ĎGeraÁ„o de Brigaí que enfrentou todas as barras do arbŪtrio e da ditadura dos anos 70 para dar vida e voz ŗs nossas manifestaÁűes e sentimentos.

Era considerado um autor maldito por n„o pertencer a nenhuma corrente de mķsica regional ou pertencer a este ou aquele grupo. Outros viam nele um compositor de vanguarda pelas experiÍncias sonoras que desenvolvia ou por versos t„o inusitados quanto: ďO sorriso do cachorro/tŠ no rabo. Ē

VI.

Nos anos 80, enfileirou hits como ďSerra do LuarĒ, ďVela AbertaĒ, ďFeito GenteĒ (que estŠ na trilha de Os Dias Eram AssimĒ), ďRespire FundoĒ e o supracitado ďCoraÁ„o TranquiloĒ, entre outros.

Uma de suas canÁűes fez sucesso na voz de Chico Buarque, e ť bem emblemŠtica tanto para aqueles anos duros como para os tempos que ora vivemos.

Chama-se ďMe Deixe MudoĒ;

ďN„o diga nada
Saiba de tudo
Fique calada
Me deixe mudo
Seja num canto
Seja num centro
Fique por fora
Fique por dentro
Seja o avesso
Seja a metade
Se for comeÁo
Fique ŗ vontade
N„o me pergunte
N„o me responda
N„o me procure
E n„o se escondaĒ

VII.

No entanto, o grande momento de Walter Franco foi no Festival Internacional da CanÁ„o, de 1971. Franco foi finalista com a bombŠstica ďCabeÁaĒ:

ďQue ť que tem nessa cabeÁa, irm„o?
Que ť que tem nessa cabeÁa, ou n„o?
Que ť que tem nessa cabeÁa, saiba irm„o.
Que ť que tem nessa cabeÁa, saiba ou n„o?
Que ť que tem nessa cabeÁa saiba que ela pode, irm„o.
Que ť que tem nessa cabeÁa saiba que ela pode ou n„o.
Que ť que tem nessa cabeÁa saiba que ela pode explodir, irm„o
CabeÁa pode, cabeÁa explode, ou n„o ou n„o ou n„o...Ē

Os censores de plant„o nada entenderam da letra falada, dos rifis rasgados e Šsperos das guitarras, da performance de Walter Franco, todo de branco, e ensandecido.

Resolveram, ent„o, intervir.

VIII.

Assim que souberam que o jķri a escolheu como a vitoriosa da fase nacional do FIC, pressionaram a Globo (organizadora do festival), destituŪram Nara Le„o da presidÍncia do corpo de jurados e deram a vitůria ŗ festiva ďFio MaravilhaĒ, de Jorge Ben Jor, interpretada bizarramente por Maria Alcina.

 
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