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Belchior (1946/2017)
30/04/2017
 

AntŰnio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

Eu o amolava.

Isso n„o ť um nome. … um tŪtulo de nobreza.

Sempre foi Belchior. Todos o conheciam. Simplesmente Belchior, para as artes. Mķsica, poesia e telas Ė muitas, dele e de outros pintores, que tomavam todos as paredes, do teto ao rťs do ch„o, da casa onde morou, průxima ao aeroporto de Congonhas, aqui, em S„o Paulo.

Foi lŠ que nos encontramos pela ķltima vez. LŠ se v„o quase 20 anos. Levei um grupo de estudantes de Jornalismo para entrevistŠ-lo sobre o efervescente cenŠrio musical brasileiro na dťcada de 70.

II.

Belchior foi o mais representativo cantor/compositor daqueles anos Šsperos Ė pois, marcados pela censura e pelo regime ditatorial Ė e transformadores.

Havia uma cumplicidade entre autor e os jovens de ent„o Ė eu, entre eles. Seus versos eram os nossos versos. As nossas afliÁűes, angķstias, verdades, anseios...

Pertenceu ao que o jornalista TŠrik de Souza definiu, ŗ ťpoca, como a ďGeraÁ„o de BrigaĒ da MPB. Belchior e seus contempor‚neos Ė Ivan Lins, Alceu ValenÁa, Luiz Melodia, Raul Seixas, Sťrgio Sampaio, Fagner, Ednardo, Gonzaguinha, Novos Baianos, Jo„o Bosco, Djavan, Jorge Mello, Geraldo Azevedo, Walter Franco, Eduardo Gudim, Djavan, Carlinhos Vergueiro, Diana Pequeno, Elba, Zť Ramalho entre outros Ė deram voz e vez ao canto de um povo sufocado pelos ditadores de plant„o e seus cupinchas.

(N„o era lŠ muito diferente do status quo que hoje infelizmente vemos dando ŗs ordens na mŪdia e no PaŪs.)

III.

O disco ďAlucinaÁ„oĒ, (lanÁado em 77, pela Polygran) rompeu as mordaÁas tanto nas emissoras de rŠdio como nas de TV. Sucessos como ďApenas Um Rapaz Latino AmericanoĒ, ďComo Nossos PaisĒ, ďGalos, Noites e QuintaisĒ, ďVelha Roupa ColoridaĒ e a faixa tŪtulo ďAlucinaÁ„oĒ tiveram uma aceitaÁ„o imediata de crŪtica e pķblico.

A partir daŪ, Belchior tornou-se um dos principais nomes da cena artŪstica nacional.

IV.

Eu o entrevistei vŠrias vezes para os diversos jornais em que trabalhei. (No site, reproduzo um desses encontros na seÁ„o ďLeia esta canÁ„oĒ). Era um cara esclarecido, culto que dizia traduzir, em seus versos e canÁűes, a verdade nua e crua daqueles dias. ďMas, sem perder a poťticaĒ, me disse, certa vez.

- Sem perder a ternura, sempre, retruquei.

Em outra ocasi„o, veio ao jornal em que eu trabalhava para divulgar o show que faria no Teatro ItŠlia. Seria algo mais intimista, acķstico. Tempos menos densos. A redemocratizaÁ„o do PaŪs jŠ era uma realidade Ė inŪcio dos anos 80. Ele entendia que jŠ n„o cabia o grito, o escancaro; mas, sim, as sinuosidades dos sentimentos. A palavra se sobrepondo ŗ melodia, sem negligenciŠ-la, ůbvio.

V.

Ao fim da entrevista, eu o comparei a um Bob Dylan tupiniquim.

Desconfio que n„o gostou. BalanÁou a cabeÁa, e sorriu.

- Sem comparaÁűes, disse. - Sou de Sobral, CearŠ. Brasil. E isso muda tudo. E ť o que me basta: cantar e mudar as coisas ť o que me interessa.

Despediu-se - e se foi dirigindo o seu Mini Gurgel de dois lugares.

Descanse em paz, amigo. Sua obra continuarŠ falando por nůs, a sua gente, a nossa gente.

 
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